Querido leitor,
Aqueles que me conhecem suficientemente sabem que sempre defendi o afastamento entre RELIGIÃO e CIÊNCIA, ou entre RELIGIÃO e CONHECIMENTO ACADÊMICO. Os religiosos fanáticos que me perdoem mas é assim que penso.
Comecei a formar minha opinião a esse respeito quando, em 1999, entrei para o curso de História na Universidade Federal de Minas Gerais. Foi na universidade e contando com as demoradas e pacientes discussões com alguns professores (inclusive o professor Marco Antônio - um dos maiores medievalistas do país, e que hoje não está mais entre nós) que percebi que NÃO ERA POSSÍVEL buscar no conhecimento histórico matéria prima para a minha fé (eu sou cristã).
Percebi que teria de fazer então um enorme exercício para CRER nas Sagradas Escrituras SEM CONTUDO pretender encontrar registros históricos concretos que validassem os textos sagrados. Encontrei uma saída simples e coerente: se a fé, segundo o próprio texto bíblico, é a convicção daquilo que não se vê, optei por continuar com a minha fé. Mas preservei o conhecimento histórico-acadêmico num local separado e protegido da minha mente, sem sacrificá-lo em prol da minha escolha religiosa e sem subordiná-lo à minha crença.
Foi assim que lidei com o implacável dilema que muitos outros cristãos que ingressam no curso de História devem enfrentar. E permito-me ainda hoje ser duas VivianeS: a Viviane-cristã e a Viviane-historiadora.
Foi com base em incansáveis relfexões, leituras e discussões tanto com respeitados professores de História da Universidade quanto com dignos teólogos que concluí, caro leitor, que FÉ RELIGIOSA e CONHECIMENTO HISTÓRICO não podem se fundir. Do contrário, o árduo trabalho criterioso do historiador se torna CATIVO de uma religiosidade fanática e opressora.
E vejam só qual não foi minha surpresa quando me deparei, dia desses, com esse texto em um blog :
"Temos ainda o Império Romano que por ter sido um tempo de trevas e morte na face da terra, por ter subjugado outros povos está associado ao monstro de dentes de ferro e sete chifres, sendo portanto as pernas de ferro da estatua de Nabucodonosor.
Na interpretação do sonho de Nabucodonosor Daniel revela que os dedos dos pés da estatua eram metade de ferro e metade de barro o que dizia que em parte os reinos seriam fortes e por outro lado seriam fracos já que barro e ferro não se misturam e não podem ter liga. E que seria justamente neste tempo que surgiria um reino que não teria fim. Ainda no sonho uma pedra veio do céu e caiu em cima dos pés da estatua e a despedaçou, o vento levou embora toda a estatua em ruínas e no lugar a pedra cresceu e se tornou uma grande montanha que cobriu o mundo inteiro.
Hoje o Conselho de Segurança da ONU é formado por 5 países membros permanentes que tem o poder de voto e veto sobre começar ou terminar uma guerra, e existem propostas de ampliação deste conselho para 10 países como membros permanentes, o que para mim seriam justamente os últimos 10 reinos representado pelos pés de ferro e barro da estatua de Nabucodonosor".
Confesso a vocês que lamentei profundamente cada linha desse texto escrito de maneira tão leviana. Receio que esse tipo de reflexão que alicerçou o texto acima seja uma violência contra o pensamento histórico. O conhecimento histórico merece AUTONOMIA com relação à religiosidade.
Conclamo a todos os leitores que cordial e pacientemente chegaram ao final deste meu post, que se dignem ignorar toda e qualquer mensagem que ofenda tanto o saber histórico (como esta que transcrevi).