Adoro essa canção do Raul:
Oh! Oh! Oh! Seu Moço
Do disco voador
Me leve com você
Pra onde você for
Oh! Oh! Oh! Seu Moço
Mas não me deixe aqui
Enquanto eu sei que tem
Tanta estrela por aí
(Disco voador-Raul Seixas)
quinta-feira, 29 de julho de 2010
domingo, 11 de julho de 2010
Um verdadeiro "saco de gatos"

Chico começou e George Orwell completou. Sei que a narrativa sobre a opressão da bicharada não ocorreu nessa mesma ordem. Mas é impressionante como é possível alinhavar as duas preciosas fábulas.
Nos Saltimbancos, Chico Buarque denunciou de maneira formidavelmente lúdica a opressão sofrida pela “Bicharia” que, enfim, de tão subjugada, transforma tudo em um “saco de gatos”:
Bicharia (Chico Buarque)
Au, au, au। Hi-ho hi-ho.
Miau, miau, miau। Cocorocó.
O animal é tão bacana
Mas também não é nenhum banana.
Au, au, au. Hi-ho hi-ho.
Miau, miau, miau. Cocorocó.
Quando a porca torce o rabo
Pode ser o diabo
E ora vejam só.
Au, au, au. Cocorocó.
Era uma vez
(E é ainda)
certo país
(E é ainda)
Onde os animais
Eram tratados como bestas
(São ainda, são ainda)
Tinha um barão
(Tem ainda)
Espertalhão
(Tem ainda)
Nunca trabalhava
E então achava a vida linda
(E acha ainda, e acha ainda)
Puxa, jumento
(Só puxava)
Choca galinha
(Só chocava)
Rápido, cachorro
Guarda a casa, corre e volta
(Só corria, só voltava).
Mas chega um dia
(Chega um dia)
Que o bicho chia
(Bicho chia)
Bota pra quebrar
E eu quero ver quem paga o pato
Pois vai ser um saco de gatos
Em “Revolução dos Bichos”, Orwell atesta que Chico estava certo: “Mas chega um dia / Que o bicho chia”। E aí então, a “Revolução” se inicia no celeiro. Orwell, em “Revolução dos Bichos”, dá voz e poder à bicharada. Os humanos são derrotados em um levante liderado pelos porcos da fazenda.
Nos Saltimbancos, Chico Buarque denunciou de maneira formidavelmente lúdica a opressão sofrida pela “Bicharia” que, enfim, de tão subjugada, transforma tudo em um “saco de gatos”:
Bicharia (Chico Buarque)
Au, au, au। Hi-ho hi-ho.
Miau, miau, miau। Cocorocó.
O animal é tão bacana
Mas também não é nenhum banana.
Au, au, au. Hi-ho hi-ho.
Miau, miau, miau. Cocorocó.
Quando a porca torce o rabo
Pode ser o diabo
E ora vejam só.
Au, au, au. Cocorocó.
Era uma vez
(E é ainda)
certo país
(E é ainda)
Onde os animais
Eram tratados como bestas
(São ainda, são ainda)
Tinha um barão
(Tem ainda)
Espertalhão
(Tem ainda)
Nunca trabalhava
E então achava a vida linda
(E acha ainda, e acha ainda)
Puxa, jumento
(Só puxava)
Choca galinha
(Só chocava)
Rápido, cachorro
Guarda a casa, corre e volta
(Só corria, só voltava).
Mas chega um dia
(Chega um dia)
Que o bicho chia
(Bicho chia)
Bota pra quebrar
E eu quero ver quem paga o pato
Pois vai ser um saco de gatos
Em “Revolução dos Bichos”, Orwell atesta que Chico estava certo: “Mas chega um dia / Que o bicho chia”। E aí então, a “Revolução” se inicia no celeiro. Orwell, em “Revolução dos Bichos”, dá voz e poder à bicharada. Os humanos são derrotados em um levante liderado pelos porcos da fazenda.
O lamentável é Orwell considerar que uma Revolução tão justa tenha sido decorrente de um devaneio. Em sua narrativa, Orwell considera que a idéia da revolução nasceu de um SONHO do velho Major- o porco.
Uma revolução que vislumbre a igualdade nunca é fruto de um devaneio, por mais que não se alcance, com ela, os resultados esperados. Não há nada mais racional do que almejar a igualdade. A disparidade, essa sim é irracional.
Mas discordar de trechos da fábula não me faz admirar menos "A Revolução dos Bichos". De maneira formidavelmente lúcida, Orwell "coloca o dedo na ferida" e descortina as contradições e insuficiências do socialismo real e do processo revolucinário russo.
sábado, 1 de maio de 2010

O mais gostoso de se relacionar é aprender. Perdi a conta de quanta coisa legal aprendi com meus colegas de trabalho, com meus amigos e com meus alunos.
Uma das preciosidades que aprendi a curtir foi nossa querida MAFALDA. Eu já possuía um pequeno livro com algumas tirinhas. Mas era só um livro empoeirado na estante. Mas quando a Fabíola (amiga de trabalho e de departamento) falou de seu costume de anexar tirinhas da Mafalda nos últimos slides de suas aulas, parecia já não ser mais a Fabíola falando e sim, a "marketeira oficial" da Mafaldita. Os olhos dela brilhavam. A devoção da Fabíola àquela pequenina personagem fez toda a diferença. E não é que decidi apostar?
De lá pra cá, percorro sempre alguns sites e visito sempre meu pequenino livro de tirinhas. E a Fabíola é a culpada. Foi ela quem promoveu a Mafalda, ao menos pra mim. Sei que pra Fabíola, esse incentivo foi involuntário e imperceptível. Mas o resultado do que ela involuntariamente promoveu é a prova de que a gente precisa acreditar pra convencer. E gostar, pra promover.
segunda-feira, 26 de abril de 2010
Vazio
Sofrer se parece com estar suspenso. A gente espera pelo repouso que não vem.
E dormir? Dormir não resolve. Chico Buarque já havia alertado: "inútil dormir que a dor não passa".
Se dormir não resolve e chorar também não (porque a angústia não sai na lágrima), como enfrentar dias cinzentos? Meu remédio é ler.
Lendo descobri que quando não há remédio pra mal do corpo, "a única coisa a fazer é tocar um tango argentino".
E foi também a literatura que me ensinou que "a gente pode ficar sempre alegre, alegre, mesmo com toda coisa ruim que acontece acontecendo. A gente deve de poder ficar então mais alegre, mais alegre, por dentro!"
Ler descansa a alma e alenta o espírito.
quinta-feira, 15 de abril de 2010
Filho

O FILHO QUE EU QUERO TER
Toquinho/Vinícius de Moraes
É comum a gente sonhar, eu sei, quando vem o entardecer
Pois eu também dei de sonhar um sonho lindo de morrer
Vejo um berço e nele eu me debruçar com o pranto a me correr
E assim chorando acalentar o filho que eu quero ter
Dorme, meu pequenininho, dorme que a noite já vem
Teu pai está muito sozinho de tanto amor que ele tem
De repente eu vejo se transformar num menino igual à mim
Que vem correndo me beijar quando eu chegar lá de onde eu vim
Um menino sempre a me perguntar um porque que não tem fim
Um filho a quem só queira bem e a quem só diga que sim
Dorme menino levado, dorme que a vida já vem
Teu pai está muito cansado de tanta dor que ele tem
Quando a vida enfim me quiser levar pelo tanto que me deu
Sentir-lhe a barba me roçar no derradeiro bei..jo seu
E ao sentir também sua mão vedar meu olhar dos olhos seus
Ouvir-lhe a voz a me embalar num acalanto de adeus
Dorme meu pai sem cuidado, dorme que ao entardecer
Teu filho sonha acordado, com o filho que ele quer Ter.
sábado, 10 de abril de 2010
quinta-feira, 8 de abril de 2010
Dilma

Ainda não escolhi meu candidato às eleições presidenciais deste ano. Mas já sei quem eu NÃO quero ver no Planalto: Dilma Roussef. E por dois motivos: está claro e evidente que nossa querida ex-ministra tem feito uso das inaugurações das obras do PAC para conquistar a maior parcela possível do mercado eleitoral, mesmo fazendo questão de insistir que não passa, por enquanto, de uma pré-candidata.
Nunca uma ex-ministra fez tanta questão de holofotes. Em todas as cerimônias de inauguração de obras do PAC(que tem sido muitas), dividem a cena o nosso querido presidente, e ela, a ex-guerrilheira petista. O engraçado é que não era essa a rotina. Ao longo dos vários anos de governo, nosso presidente-operário inaugurou um turbilhão de obras. E não era praxe de Lula levar Dilma à tira-colo. Só que hoje, a circunstância é diversa. O PT pretende continuar. E pra isso, vale se valer da máquina governamental pra promover determinada candidata. Vale fazer o que não se pode fazer. Aliás, no Brasil, o que é que não vale?
O segundo motivo pelo qual não quero Dilma no Planalto vem logo acima desse texto. A meu ver, admirar a gestão Aécio é não ser capaz de enchergar além da superfície. Afirmar que Aécio foi um "governador exemplar" é a mais perfeita evidência de desprezo pela sociedade mineira. Gostaria que a senhora Dilma fosse apresentada ao contra-cheque de um professor da rede ESTADUAL de ensino daqui de Minas. Ela certamente mudaria a opinião que tem com relação ao nosso ex-governador.
Gostaria que nossa simática Dilma analisasse com bastante cuidado os jornais impressos que circulam em Minas. São verdadeiros panfletos em favor do governo do estado. Como se Minas fosse o melhor lugar do mundo pra se viver. Acho que estou em Passárgada.
Bom, fui petista por um bom tempo. O PT já me encheu de orgulho. Já me deu inúmeras satisfações. Já me surpreendeu positivamente. Mas decidi que o meu voto não pode se pautar na fidelidade a um partido que não tem sido fiel ao princípio da honestidade e da defesa do trabalhador.
sábado, 27 de março de 2010
Cordialidade
Detalhe: na placa do carro, lê-se: "Carro oficial"Foi pesquisando para preparar o curso "Um olhar múltiplo e interpretativo sobre a fonte histórica", que cheguei a essa charge। E adorei. Ela me fez lembrar o bate papo que tive com o Flávio(meu primo) sobre "o homem cordial", classificação criada por Sérgio Buarque de Hollanda para se referir ao povo brasileiro.
"No Brasil, pode dizer-se que só excepcionalmente tivemos um sistema administrativo e um corpo de funcionários puramente dedicados a interesses objetivos e fundados nesses interesses. Ao contrário, é possível acompanhar, ao longo de nossa história, o predomínio constante das vontades particulares que encontram seu ambiente próprio em círculos fechados e pouco acessíveis a uma ordenação impessoal."
Holanda, Sérgio Buarque de। Raízes do Brasil.26 ed.São Paulo: Companhia das Letras,1995, p. 146.
Se eu entendi bem o que vem a ser o "patrimonialismo", inerente a trajetória histórica e cultural do nosso país, eu o vejo nessa charge.
sexta-feira, 26 de março de 2010
Morte

Dia desses assisti a uma entrevista com o ator e diretor Paulo José. Com o mesmo semblante sereno que sempre teve, Paulo José contava ao entrevistador como recebeu o diagnóstico de ser portador do mal de Parkinson. O ator contou que a trágica notícia chegou até ele na sentença apocalíptica do neurologista:
- O mal de Parkinson é uma doença progressiva, degenerativa e irreversível.
A essa tríade aparentemente trágica, Paulo José respondeu com a doçura que só a sabedoria pode dar:
- Mas a VIDA é assim!
Não houve naquele instante lágrimas nem desespero. Não houve lamúrias e nem dramas. Houve compreensão e reflexão.
E é assim que eu acho que deve ser. A degeneração é a evidência de que somos seres viventes "normais". Não há nada trágico na enfermidade. Mesmo se para ela não há cura. Eu fico com o ditado dos antigos: "O que não tem remédio, remediado está".
Adoecer é triste. Não trágico. Adoecer não é absurdo. E morrer doente também não.
Trágico mesmo é a morte que vem embalada em um acidente automobilístico estúpido. E estúpida é a morte que vem em um tiro de revólver, ou em uma rajada metralhada em uma guerra. Isso sim é trágico. Porque não está na ordem natural da existência. Porque invade um ciclo impondo o fim de algo que ainda poderia continuar existindo.
Discordo de Vandré que cantou em compasso quaternário: "a morte, o destino tudo estava fora do lugar e eu vivo pra consertar". Existem mortes inconvenientes, e outras não. Outras vêm porque senão a vida atrofia. E assim, vira morte em vida.
Bão, acho que a modernidade e seus avanços nos trouxeram a pretensão da vida eterna. Não aceitamos mais a dor, a doença, nem o fim. Mesmo sendo esse fim, tão certo quanto ele sempre foi.
- O mal de Parkinson é uma doença progressiva, degenerativa e irreversível.
A essa tríade aparentemente trágica, Paulo José respondeu com a doçura que só a sabedoria pode dar:
- Mas a VIDA é assim!
Não houve naquele instante lágrimas nem desespero. Não houve lamúrias e nem dramas. Houve compreensão e reflexão.
E é assim que eu acho que deve ser. A degeneração é a evidência de que somos seres viventes "normais". Não há nada trágico na enfermidade. Mesmo se para ela não há cura. Eu fico com o ditado dos antigos: "O que não tem remédio, remediado está".
Adoecer é triste. Não trágico. Adoecer não é absurdo. E morrer doente também não.
Trágico mesmo é a morte que vem embalada em um acidente automobilístico estúpido. E estúpida é a morte que vem em um tiro de revólver, ou em uma rajada metralhada em uma guerra. Isso sim é trágico. Porque não está na ordem natural da existência. Porque invade um ciclo impondo o fim de algo que ainda poderia continuar existindo.
Discordo de Vandré que cantou em compasso quaternário: "a morte, o destino tudo estava fora do lugar e eu vivo pra consertar". Existem mortes inconvenientes, e outras não. Outras vêm porque senão a vida atrofia. E assim, vira morte em vida.
Bão, acho que a modernidade e seus avanços nos trouxeram a pretensão da vida eterna. Não aceitamos mais a dor, a doença, nem o fim. Mesmo sendo esse fim, tão certo quanto ele sempre foi.
quarta-feira, 3 de março de 2010
Chavez

Não bastasse ser acusado de dar apoio às FARCs, o presidente Venezuelano Hugo Chavez agora é réu em outro "julgamento" . Dessa vez, os tentáculos de Chavez se mostram mais cumpridos. Chegam ao outro lado do Atlântio. A Folha de São Paulo publicou hoje (dia 3/03/2010) que Chavez é suspeito de dar apoio ao grupo separatista ETA (que luta pela total soberania do povo basco).
Sabe o que penso? Chavez tem sido tratado pela mídia e por algumas diplomacias, como o satanás é tratado por algumas igrejas pentecostais. A culpa é sempre dele. É ele quem sempre faz e acontece. Ele tem muito poder. Cuidado com ele que ele te pega. Não durma no ponto. Em cada esquina há um Chavez na espreita.
Acho que nem Chavez tem ciência de muito do que se atribui a ele.
domingo, 28 de fevereiro de 2010
Culturalismo
O olhar do historiador sobre a história não pode ser indiferente ao indivíduo. Não se pode focar o coletivo e grandioso e nutrir desprezo pelo micro. Da mesma maneira, o olhar do historiador precisa levar em conta que as sociedades humanas constituem não somente um aglomerado de pessoas pertencentes a classes e detentoras de interesses econômicos e políticos. Essas pessoas, é importante que se lembre, têm sonhos. Elas têm medos e expectativas. Têm incertezas. Sofrem de inconformismo ou de resignação.Sofrem de amor ou pela falta dele.
Talvez a voz que mais fortemente tem militado em favor dessa concepção de história seja a de Mary Del Priore. Adoro os textos dela. E as entrevistas também.
A história precisa levar em conta que as evidências que se revelam mais palpáveis são, na verdade, produto de estados de espírito.
A esse respeito, recomendo o filme "Nós que aqui estamos, por vós esperamos".
Eis uma citação presente no filme, e que vai ao encontro desse assunto:
"Em uma guerra, não se matam milhares de pessoas.
Mata-se alguém que adora espaguete,
outro que é gay,
outro que tem uma namorada.
Uma acumulação de pequenas memórias..."
Cristian Boltanski
Talvez a voz que mais fortemente tem militado em favor dessa concepção de história seja a de Mary Del Priore. Adoro os textos dela. E as entrevistas também.
A história precisa levar em conta que as evidências que se revelam mais palpáveis são, na verdade, produto de estados de espírito.
A esse respeito, recomendo o filme "Nós que aqui estamos, por vós esperamos".
Eis uma citação presente no filme, e que vai ao encontro desse assunto:
"Em uma guerra, não se matam milhares de pessoas.
Mata-se alguém que adora espaguete,
outro que é gay,
outro que tem uma namorada.
Uma acumulação de pequenas memórias..."
Cristian Boltanski
AIDS
Há bastante tempo atrás, coisa de séculos e séculos, a Europa Ocidental foi implacavelmente castigada pela epidemia de Peste Negra. Naquele tempo, quem aplicava a sentença era Deus. E Deus disse (mas só os padres escutaram): - É castigo. A Peste vos ceifará porque as transgreções se multiplicaram entre vocês.
Não bastasse atribuir a Peste à ira de Deus, muitos bons cristãos europeus buscavam pretexto pra judiar de judeus, esspalhando que talvez, a maldita peste não fosse castigo divino. Os anti-semitas de plantão daquele tempo botaram a culpa nos judeus (que, aliás, nasceram com o gen da culpa): - Os judeus têm envenenado os poços d'água de toda Europa.Por isso a Europa está doente.
Bão, o que importa é constatar que é velha a mania humana de atribuir enfermidades a pecados. A transgressão traz castigo.
O curioso é perceber que tantos séculos se passaram e a mania permanece. Nos anos 80 o Brasil viveu uma das mais tristes páginas de sua história: a epidemia de AIDS. A falta de cuidado nos bancos de sangue, somada à inexistência de uma campanha efetiva de prevenção, trouxe a contaminação pra muita gente.
Naquele tempo, sobrava conversa fiada acerca da AIDS. E os jornais falavam em "grupos de risco". Quais eram? Hemofílicos, homosexuais, prostitutas e usuários de drogas injetáveis. A beatagem católica então teve um insite: -Tirando os hemofílicos, os demais grupos de risco são grupos faltosos com Deus. Transgressores.
E daí veio a conclusão:ser soropositivo é castigo. Castigo merecido para putas, gays e drogados.
No século XX, pensávamos como no XIV: EPIDEMIA É CASTIGO. É DEUS QUERENDO VARRER A TERRA DOS ÍMPIOS. Mas em meio a tanta baboseira caminhante na mídia e nos bate-papos do cotidiano, emergiu a voz do bom senso, da lucidez e da solidariedade. Herbert de Souza - o Betinho, foi um incansável combatente das práticas de segregação do aidético.
E com aquele corpo frágil, muito aquém da grandeza de suas palavras e idéias, Betinho revelou ao Brasil e ao mundo que mais nocivo que o vírus da AIDS, é o preconceito da sociedade e do poder público com relação aos soropositivos.
Encontrei um texto lindo de Betinho a esse respeito. E gostaria de compartilhá-lo:
O dia da cura
(Betinho)
Numa manhã comum, como qualquer outra, abri o jornal e li a manchete: Descoberta a Cura da AIDS! A princípio fiquei deslocado na cama, como se a terra tivesse saído do lugar e meu quarto estivesse mais à esquerda do que de costume.
Fiquei por um tempo parado, sem saber qual deveria ser o primeiro ato de uma pessoa de novo condenada a viver. Primeiro, certificar-se. Telefonei para o meu médico. Realmente, a notícia era sólida, e o próprio presidente dava declarações na TV americana assumindo a veracidade do fato: dez pacientes em estado avançado da doença haviam tomado o CD2 e não apresentavam nenhum sinal ou sintoma da presença do vírus em seus organismos. Um eficiente viricida fora descoberto. As outras notícias seguiam o mesmo curso. O laboratório do CD2 tivera uma espetacular alta na bolsa de Nova Iorque. Na França, o Instituto Pasteur dizia que outra coincidência acompanhava os caprichos da ciência. Ali também o SD2 estava no forno, quase pronto para ser anunciado. Telefonei para o meu analista. Dei a notícia sobre a cura da AIDS e decidi que só enfrentaria a felicidade nas próximas sessões. Afinal me havia preparado tanto para a morte que a vida agora era um problema.
Do meu lado, Maria ainda dormia e não sabia que nossa vida havia mudado. Casados há 21 anos, os últimos tinham sido um tempo de tensão a cada gripe, mancha na pele, febre sem explicação. O amor feito durante tanto tempo e que havia sido interrompido pelo medo do contágio, do descuido, do imponderável, estava agora ao alcance da vida como um milagre, apesar de meus 56 anos, como costuma insistir um jornal paulista. Pensei comigo mesmo, camisinhas nunca mais! Maria dormia, ainda não sabia da novidade. Ela agora poderia ser viúva de outras coisas mais banais, mais correntes, mais normais. Ela não mais seria a viúva da AIDS. Grandes avanços. Tinha os filhos para avisar. Não mais seriam órfãos da AIDS. O pai agora tinha algo de imortal ou podia morrer como todo os mortais.
A TV continuava a mostrar cenas incríveis em Nova Iorque, e o meu telefone já começava a tocar. Afinal, eu havia sido, durante quase dez anos o entrevistado perfeito para o caso da AIDS: era hemofílico, contaminado e sociólogo. Podia desempenhar três papéis num só tempo e numa só pessoa. Eu era uma espécie de trindade aidética! Iam querer saber o que sentia, o que faria, meus primeiros atos, minhas emoções, minhas reações diante da vida e da normalidade. Imaginava as perguntas: como você se sente agora que é de novo um ser normal? O que vai fazer agora de sua vida? O que efetivamente mudou na sua vida? O que você aprendeu com a AIDS? Você continua a ter raiva do governo? Cheguei a pensar, como Chico Buarque, que daria minha primeira entrevista ao Jô Soares. Afinal, falaria da vida, tomando cerveja!
Ainda na cama, onde, de manhã, gosto de ficar, tive saudades do Henfil e do Chico, e em meio à alegria que já me contagiava, chorei. Por que haviam sofrido tanto e morrido tão fora de hora? Quanto sofrimento inútil, quanta dor que palavras não descrevem. O olhar parado de quem expira. O abandono sem remédio. A fatalidade que nem a morte enterra? Por que logo eles haviam morrido, se eram meus irmãos, a quem telefonava com a certeza de quem acreditava poder fazer isso séculos e séculos seguidos? De repente, ninguém do outro lado da linha. Números riscados numa agenda sem remédio. Ainda a lembrança do Chico no enterro do Henfil, dizendo para mim, entre espanto e humor: hoje é o Henfil, amanhã serei eu, e você irá daqui a 03 anos... Bem, digamos 05!
E hoje estou aqui passados 04 anos, quase 05, lendo essa notícia, e eles todos mortos antes do tempo. Não há remédio para a morte de meus irmãos, que são tantos.
De repente me dou conta de que houve realmente remédio para a AIDS. É hora de levantar, atender os telefonemas, reunir o pessoal da ABIA. Festejar com o pessoal do IBASE. Abrir um champanhe, ou uma cerveja. Telefonar para saber onde estava o tal remédio, como comprá-lo, o preço, o prazo da chegada. Estaria disponível quando, a que preço? Quem poderia comprá-lo?
Algo inusitado acontecia em paralelo. Amigos e amigas, que não suspeitava, me chamavam para dizer que eles também eram soropositivos, porque agora havia cura. Uns diziam que suas vidas sexuais eram um caos, mas que agora havia cura. Alguns me chamavam para dizer que iriam começar o tratamento, o controle e a pensar na vida, porque agora havia cura. E, finalmente, outros me diziam que agora poderiam revelar a imprensa sua condição de soropositivos, para servir de exemplo, porque agora havia cura.
De repente, dei-me conta de que tudo havia mudado porque havia cura. Que a idéia da morte inevitável paralisa. Que a idéia da vida mobiliza... Mesmo que a morte seja inevitável, como sabemos. Acordar, sabendo que se vai viver, faz tudo ter sentido de vida. Acordar pensando que se vai morrer faz tudo perder o sentido. A idéia da morte é a própria morte instalada.
De repente, dei-me conta de que a cura da AIDS existia antes mesmo de existir, e de que seu nome era vida. Foi de repente, como tudo acontece.
Não bastasse atribuir a Peste à ira de Deus, muitos bons cristãos europeus buscavam pretexto pra judiar de judeus, esspalhando que talvez, a maldita peste não fosse castigo divino. Os anti-semitas de plantão daquele tempo botaram a culpa nos judeus (que, aliás, nasceram com o gen da culpa): - Os judeus têm envenenado os poços d'água de toda Europa.Por isso a Europa está doente.
Bão, o que importa é constatar que é velha a mania humana de atribuir enfermidades a pecados. A transgressão traz castigo.
O curioso é perceber que tantos séculos se passaram e a mania permanece. Nos anos 80 o Brasil viveu uma das mais tristes páginas de sua história: a epidemia de AIDS. A falta de cuidado nos bancos de sangue, somada à inexistência de uma campanha efetiva de prevenção, trouxe a contaminação pra muita gente.
Naquele tempo, sobrava conversa fiada acerca da AIDS. E os jornais falavam em "grupos de risco". Quais eram? Hemofílicos, homosexuais, prostitutas e usuários de drogas injetáveis. A beatagem católica então teve um insite: -Tirando os hemofílicos, os demais grupos de risco são grupos faltosos com Deus. Transgressores.
E daí veio a conclusão:ser soropositivo é castigo. Castigo merecido para putas, gays e drogados.
No século XX, pensávamos como no XIV: EPIDEMIA É CASTIGO. É DEUS QUERENDO VARRER A TERRA DOS ÍMPIOS. Mas em meio a tanta baboseira caminhante na mídia e nos bate-papos do cotidiano, emergiu a voz do bom senso, da lucidez e da solidariedade. Herbert de Souza - o Betinho, foi um incansável combatente das práticas de segregação do aidético.
E com aquele corpo frágil, muito aquém da grandeza de suas palavras e idéias, Betinho revelou ao Brasil e ao mundo que mais nocivo que o vírus da AIDS, é o preconceito da sociedade e do poder público com relação aos soropositivos.
Encontrei um texto lindo de Betinho a esse respeito. E gostaria de compartilhá-lo:
O dia da cura
(Betinho)
Numa manhã comum, como qualquer outra, abri o jornal e li a manchete: Descoberta a Cura da AIDS! A princípio fiquei deslocado na cama, como se a terra tivesse saído do lugar e meu quarto estivesse mais à esquerda do que de costume.
Fiquei por um tempo parado, sem saber qual deveria ser o primeiro ato de uma pessoa de novo condenada a viver. Primeiro, certificar-se. Telefonei para o meu médico. Realmente, a notícia era sólida, e o próprio presidente dava declarações na TV americana assumindo a veracidade do fato: dez pacientes em estado avançado da doença haviam tomado o CD2 e não apresentavam nenhum sinal ou sintoma da presença do vírus em seus organismos. Um eficiente viricida fora descoberto. As outras notícias seguiam o mesmo curso. O laboratório do CD2 tivera uma espetacular alta na bolsa de Nova Iorque. Na França, o Instituto Pasteur dizia que outra coincidência acompanhava os caprichos da ciência. Ali também o SD2 estava no forno, quase pronto para ser anunciado. Telefonei para o meu analista. Dei a notícia sobre a cura da AIDS e decidi que só enfrentaria a felicidade nas próximas sessões. Afinal me havia preparado tanto para a morte que a vida agora era um problema.
Do meu lado, Maria ainda dormia e não sabia que nossa vida havia mudado. Casados há 21 anos, os últimos tinham sido um tempo de tensão a cada gripe, mancha na pele, febre sem explicação. O amor feito durante tanto tempo e que havia sido interrompido pelo medo do contágio, do descuido, do imponderável, estava agora ao alcance da vida como um milagre, apesar de meus 56 anos, como costuma insistir um jornal paulista. Pensei comigo mesmo, camisinhas nunca mais! Maria dormia, ainda não sabia da novidade. Ela agora poderia ser viúva de outras coisas mais banais, mais correntes, mais normais. Ela não mais seria a viúva da AIDS. Grandes avanços. Tinha os filhos para avisar. Não mais seriam órfãos da AIDS. O pai agora tinha algo de imortal ou podia morrer como todo os mortais.
A TV continuava a mostrar cenas incríveis em Nova Iorque, e o meu telefone já começava a tocar. Afinal, eu havia sido, durante quase dez anos o entrevistado perfeito para o caso da AIDS: era hemofílico, contaminado e sociólogo. Podia desempenhar três papéis num só tempo e numa só pessoa. Eu era uma espécie de trindade aidética! Iam querer saber o que sentia, o que faria, meus primeiros atos, minhas emoções, minhas reações diante da vida e da normalidade. Imaginava as perguntas: como você se sente agora que é de novo um ser normal? O que vai fazer agora de sua vida? O que efetivamente mudou na sua vida? O que você aprendeu com a AIDS? Você continua a ter raiva do governo? Cheguei a pensar, como Chico Buarque, que daria minha primeira entrevista ao Jô Soares. Afinal, falaria da vida, tomando cerveja!
Ainda na cama, onde, de manhã, gosto de ficar, tive saudades do Henfil e do Chico, e em meio à alegria que já me contagiava, chorei. Por que haviam sofrido tanto e morrido tão fora de hora? Quanto sofrimento inútil, quanta dor que palavras não descrevem. O olhar parado de quem expira. O abandono sem remédio. A fatalidade que nem a morte enterra? Por que logo eles haviam morrido, se eram meus irmãos, a quem telefonava com a certeza de quem acreditava poder fazer isso séculos e séculos seguidos? De repente, ninguém do outro lado da linha. Números riscados numa agenda sem remédio. Ainda a lembrança do Chico no enterro do Henfil, dizendo para mim, entre espanto e humor: hoje é o Henfil, amanhã serei eu, e você irá daqui a 03 anos... Bem, digamos 05!
E hoje estou aqui passados 04 anos, quase 05, lendo essa notícia, e eles todos mortos antes do tempo. Não há remédio para a morte de meus irmãos, que são tantos.
De repente me dou conta de que houve realmente remédio para a AIDS. É hora de levantar, atender os telefonemas, reunir o pessoal da ABIA. Festejar com o pessoal do IBASE. Abrir um champanhe, ou uma cerveja. Telefonar para saber onde estava o tal remédio, como comprá-lo, o preço, o prazo da chegada. Estaria disponível quando, a que preço? Quem poderia comprá-lo?
Algo inusitado acontecia em paralelo. Amigos e amigas, que não suspeitava, me chamavam para dizer que eles também eram soropositivos, porque agora havia cura. Uns diziam que suas vidas sexuais eram um caos, mas que agora havia cura. Alguns me chamavam para dizer que iriam começar o tratamento, o controle e a pensar na vida, porque agora havia cura. E, finalmente, outros me diziam que agora poderiam revelar a imprensa sua condição de soropositivos, para servir de exemplo, porque agora havia cura.
De repente, dei-me conta de que tudo havia mudado porque havia cura. Que a idéia da morte inevitável paralisa. Que a idéia da vida mobiliza... Mesmo que a morte seja inevitável, como sabemos. Acordar, sabendo que se vai viver, faz tudo ter sentido de vida. Acordar pensando que se vai morrer faz tudo perder o sentido. A idéia da morte é a própria morte instalada.
De repente, dei-me conta de que a cura da AIDS existia antes mesmo de existir, e de que seu nome era vida. Foi de repente, como tudo acontece.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
Pipa
Foi saltando de blog em blog que parei no blog da Pipa. E me encantei com os textos. O meu preferido é o "Adeus Margarida". A Pipa é uma blogueira de mão cheia. Nunca vi tanta habilidade em concatenar texto e imagem.
Quando Allah distribuiu os dons, entregou a Henfil a metade do dom da escrita, e à Pipa, a outra metade.
Aí está o texto ao qual me referi: o da Margarida.
Adeus Margarida
Margarida,
hoje você saiu no jornal. Não era manchete, nem foto grande de primeira página. Foi uma notinha discreta com o título de “Fatalidade”. Dizia que você era linda e alegre, mas isso não era notícia pra mim. Notícia mesmo era o que dizia de como você pegou no sono. Na banheira. E que não acordaria nunca mais.
Quando recebi a notícia pensei nas coisas que você não mais sentiria. O vento batendo no rosto. O som agradável da sua música favorita. O gosto do chocolate ao leite que você adorava. Pensei também que você não sentiria mais a água quente batendo no corpo cansado. Engraçado pensar que esta foi a ultima coisa que você sentiu. O bom é poder achar que seu corpo agora está descansado. Descansando.
Engraçado, Margarida, como as coisas são. Muita gente querendo fazer as pazes com Morfeu e criando briga com Anúbis. E você com toda delicadeza e juventude tendo que encarar os dois em algum lugar que eu quero chamar de céu. Eu sou do contra. Não quero a paz de um, nem a tormenta do outro. Quero cantar pra você que está faltando um pedacinho. E gritar que “Dona Margarida quer ensinar pra vocês as coisas simples da vida”. Não era isso que você falava?!
Foi essa lição que levei na hora de me despedir de você. Estava triste. Brava. Mas com o coração batendo num compasso três por quatro. Simplesinho. No meio do desespero de muita gente encontrei paz e força pra te levar um pouquinho de bom gosto. Entre os cravos da morte, já murchos, deixei três margaridas ainda bem dispostas e quis cantar nosso Rap. Isso porque o estranho da morte é perceber que é a gente que passa a não existir. Eu quis estar bem viva. Ou parecer.
Enchi o peito de coragem e finalizei minha homenagem: vai em paz, Margarida. E cuide do nosso jardim.
- Texto extraído do blog: http://rimasetrovoes.blogspot.com
Quando Allah distribuiu os dons, entregou a Henfil a metade do dom da escrita, e à Pipa, a outra metade.
Aí está o texto ao qual me referi: o da Margarida.
Adeus Margarida
Margarida,
hoje você saiu no jornal. Não era manchete, nem foto grande de primeira página. Foi uma notinha discreta com o título de “Fatalidade”. Dizia que você era linda e alegre, mas isso não era notícia pra mim. Notícia mesmo era o que dizia de como você pegou no sono. Na banheira. E que não acordaria nunca mais.
Quando recebi a notícia pensei nas coisas que você não mais sentiria. O vento batendo no rosto. O som agradável da sua música favorita. O gosto do chocolate ao leite que você adorava. Pensei também que você não sentiria mais a água quente batendo no corpo cansado. Engraçado pensar que esta foi a ultima coisa que você sentiu. O bom é poder achar que seu corpo agora está descansado. Descansando.
Engraçado, Margarida, como as coisas são. Muita gente querendo fazer as pazes com Morfeu e criando briga com Anúbis. E você com toda delicadeza e juventude tendo que encarar os dois em algum lugar que eu quero chamar de céu. Eu sou do contra. Não quero a paz de um, nem a tormenta do outro. Quero cantar pra você que está faltando um pedacinho. E gritar que “Dona Margarida quer ensinar pra vocês as coisas simples da vida”. Não era isso que você falava?!
Foi essa lição que levei na hora de me despedir de você. Estava triste. Brava. Mas com o coração batendo num compasso três por quatro. Simplesinho. No meio do desespero de muita gente encontrei paz e força pra te levar um pouquinho de bom gosto. Entre os cravos da morte, já murchos, deixei três margaridas ainda bem dispostas e quis cantar nosso Rap. Isso porque o estranho da morte é perceber que é a gente que passa a não existir. Eu quis estar bem viva. Ou parecer.
Enchi o peito de coragem e finalizei minha homenagem: vai em paz, Margarida. E cuide do nosso jardim.
- Texto extraído do blog: http://rimasetrovoes.blogspot.com
Eternidade
Pode haver coisa mais antipática que a ETERNIDADE? Allah me guarde de ser eterna onde quer que seja. Não vejo vantagem, muito menos boniteza no que não acaba. Pra uma coisa ser bonita, ela precisa ter um fim. Ela precisa deixar saudades. Precisa gerar a sensação da falta, do lamento pela ausência, da nostalgia do vazio.
Já parou pra pensar que 50 % das qualidades que temos nos são imputadas póstumamente. As pessoas ficam mais virtuosas quando partem. Justamente porque o fim gera a dúvida acerca do que poderia ter sido e que não foi. E do que poderia vir a ser e não será jamais. E é aí que reside a delicadeza das coisas e das pessoas. Quando alguém parte do nosso convívio, nos deixa perguntas que ecoam cortantes: "se ele estivesse aqui, agiria de outra forma"; "se ela estivesse viva, saberia lidar com essa situação". Aquele que partiu tem qualidades sobrehumanas.
Tenho uma amiga que ficou órfã de mãe na adolescência. Foi batendo longos papos com a Kel que fui apresentada ao mais perfeito afeto conjugal que já conheci. Os pais da Kel se amaram da maneira inexplicavelmente perfeita.Os olhinhos da Kel descrevendo a mãe dela eram a coisa mais terna e comovente desse mundo. Mas sei que o contar da Kel é que embeleza tudo. E embeleza tudo porque é assim que a Kel vê a mãe que partiu. A interrupção da existência é que dá outro rumo a tudo.
Fico aqui na torcida para que a eternidade não exista. Eu não a quero encontrar não. O espetáculo da vida só é bonito porque sabemos que a cortina vai se fechar.
O tédio atrelado àquilo que nunca acaba (ou demora muito a acabar) me fez lembrar uma canção do Chico e que gosto muito:
UMAS E OUTRAS
(Chico Buarque)
Já parou pra pensar que 50 % das qualidades que temos nos são imputadas póstumamente. As pessoas ficam mais virtuosas quando partem. Justamente porque o fim gera a dúvida acerca do que poderia ter sido e que não foi. E do que poderia vir a ser e não será jamais. E é aí que reside a delicadeza das coisas e das pessoas. Quando alguém parte do nosso convívio, nos deixa perguntas que ecoam cortantes: "se ele estivesse aqui, agiria de outra forma"; "se ela estivesse viva, saberia lidar com essa situação". Aquele que partiu tem qualidades sobrehumanas.
Tenho uma amiga que ficou órfã de mãe na adolescência. Foi batendo longos papos com a Kel que fui apresentada ao mais perfeito afeto conjugal que já conheci. Os pais da Kel se amaram da maneira inexplicavelmente perfeita.Os olhinhos da Kel descrevendo a mãe dela eram a coisa mais terna e comovente desse mundo. Mas sei que o contar da Kel é que embeleza tudo. E embeleza tudo porque é assim que a Kel vê a mãe que partiu. A interrupção da existência é que dá outro rumo a tudo.
Fico aqui na torcida para que a eternidade não exista. Eu não a quero encontrar não. O espetáculo da vida só é bonito porque sabemos que a cortina vai se fechar.
O tédio atrelado àquilo que nunca acaba (ou demora muito a acabar) me fez lembrar uma canção do Chico e que gosto muito:
UMAS E OUTRAS
(Chico Buarque)
Se uma nunca tem sorriso
É pra melhor se reservar
E diz que espera o paraíso
E a hora de desabafar
A vida é feita de um rosário
Que custa tanto a se acabar
Por isso às vezess ela pára
E senta um pouco pra chorar
Que dia! Nossa, pra que tanta conta
Já perdi a conta de tanto rezar
Se a outra não tem paraíso
Não dá muita importância, não
Pois já forjou o seu sorriso
E fez do mesmo profissão
A vida é sempre aquela dança
Aonde não se escolhe o par
Por isso às vezes ela cansa
E senta um pouco pra chorar
Que dia! Puxa, que vida danada
Tem tanta calçada pra se caminhar
Mas toda santa madrugada
Quando uma já sonhou com Deus
E a outra, triste namorada
Coitada, já deitou com os seus
O acaso faz com que essas duas
Que a sorte sempre separou
Se cruzem pela mesma rua
Olhando-se com a mesma dor
Que dia! Cruzes, que vida comprida
Pra que tanta vida pra gente desanimar
É pra melhor se reservar
E diz que espera o paraíso
E a hora de desabafar
A vida é feita de um rosário
Que custa tanto a se acabar
Por isso às vezess ela pára
E senta um pouco pra chorar
Que dia! Nossa, pra que tanta conta
Já perdi a conta de tanto rezar
Se a outra não tem paraíso
Não dá muita importância, não
Pois já forjou o seu sorriso
E fez do mesmo profissão
A vida é sempre aquela dança
Aonde não se escolhe o par
Por isso às vezes ela cansa
E senta um pouco pra chorar
Que dia! Puxa, que vida danada
Tem tanta calçada pra se caminhar
Mas toda santa madrugada
Quando uma já sonhou com Deus
E a outra, triste namorada
Coitada, já deitou com os seus
O acaso faz com que essas duas
Que a sorte sempre separou
Se cruzem pela mesma rua
Olhando-se com a mesma dor
Que dia! Cruzes, que vida comprida
Pra que tanta vida pra gente desanimar
Café
"Café algum é superior ao café do Brasil"
Mas não tem problema. Troco com desenvoltura e sem pensar duas vezes, um suco ultra gelado por um café bem quentinho, "passado na hora".
Como é que essa moda - a moda da devoção pelo café - pegou em terras tão escaldantes? Brasil, República Dominicana, Nicarágua e Cuba foram, durante grande período de suas histórias, grandes produtores, consumidores e exportadores de café. Os cubanos ousaram até mesmo reverenciar essa bebida mágica em linhas melódicas: quem nunca ouviu falar da clássica canção "Moliendo café" que, ao rítmo de salsa e embalada por uma percussão formidável, se espalhou mundo afora?
Mas por mais que seja hoje universal, meu fiel escudeiro nem sempre foi bem interpretado. Os maometanos, no passado, o olharam com reservas por acreditarem que a enigmática bebida era nociva à lucidez e contrária às leis do profeta Mohammed. Depois, foi a vez dos cristãos encrencarem: por ser bebida de infiéis muçulmanos, o café foi proibido aos cristãos e só obteve clemência quando o Papa Clemente o provou, gostou e aprovou.
De lá pra cá o café viajou muito. Fez amantes em todas as esquinas. E foi pretexto para encontros formais, reconciliações, discussões filosóficas e conversa fiada. Foi teimoso e se recusou a florescer em espaços que lhe foram hostis. Foi assim no Brasil. As primeiras mudas de café que aqui chegaram,vindas da Guiana, foram plantadas no Pará. Mas a planta caprichosa, cheia de vontades e dengos, deu de pirraça. E não vingou. Só aceitou funcionar quando trazida ao Vale do Paraíba.Foi a partir do Vale, que o café deu cotovelada no nosso açúcar empurrando-o para o segundo lugar na nossa pauta de exportações. Sim: no século XIX, o Brasil, que já havia sido a Terra de Santa Cruz, a terra do papagaio e a terra do açúcar, tornou-se a terra do café.
E nos empolgamos tanto, que nos excedemos. Plantávamos café no calçamento. Nas praças, nas grutas e nos alpendres. O café sofreu metástase. E ameaçou nos arruinar. Foi então que tivemos que nos esforçar para convencer os estrangeiros, de que nosso café, muito embora fosse tão café quanto qualquer outro café do planeta, era o melhor. Tarefa difícil.
Foi assim, tentando convencer o mundo a olhar para o nosso café e achar mais graça nele do que nos outros, que foram produzidas propagandas publicitárias no exterior, como essa que antecede esse meu texto.
sábado, 20 de fevereiro de 2010
Daniel

Ei... Esse é o Daniel. Daniel Le Rouge. O de Paris. O debochado. E espirituoso. Um dos líderes do movimento estudantil de 1968.
Os mais velhos o execravam. Para as "pessoas sérias e engravatadas", Daniel era o ícone da desordem e do romantismo leviano.
Para mim, Daniel, com todo o seu senso de humor, foi mais lúcido do que De Gaulle. Ele falava em reforma curricular para as universidades francesas quando toda a sociedade ignorava que estava mergulhada em uma política educacional ultrapassada e inadequada à nova realidade.
A postua sempre informal de Le Rouge talvez o tenha feito ser mal interpretado. Desordeiro? Não, senhores. Quem foi que disse que pra ter boas idéias é preciso ostentar um olhar de gravidade?
1968

Quando Allah criou o mundo, criou também o tempo. E quis que o ano de 1968 fosse o mais atrevido. E misturou nele entusiasmos e rebeldias. Deu corda na juventude. E sacudiu bastante. E o mundo virou de ponta à cabeça.
Na França, Le Rouge deu rasteiras cômicas em policiais cisudos. No Vietnã, os vermelhos golpearam ferozmente a tirania do sul. No Brasil, cem mil marcharam contra os pontapés insistentes dos militares golpistas. Nos EUA, os hippies declaravam em uníssono que o bom era fazer amor e não a guerra. E, embalados pela guitarra rebelde de Jimi Hendrix, cuspiram na sociedade de consumo inventando um modo de ser mais lúdico e artesanal.
O mundo fez careta em 1968. Riu de si próprio. Debochou de seus vícios. E descobriu que a existência é possível sem tantas regras inúteis. O bando de Le Rouge pichou num muro em Paris: "É PROIBIDO PROIBIR". E no Brasil, a Tropicalha repetiu, na voz de Caetano : É PROIBIDO PROIBIR.
E por falar em Caetano, 1968 inventou também a "desarrumação" (o texto é meu e invento a palavra que eu quiser). Sim: estar despenteado, se apresentar sem camisa, e usar roupas desbotadas tornaram-se estandartes do ativismo de uma juventude que queria fazer a diferença numa sociedade demasiadamente moralista.
Permitam-me estabelecer um diálogo com o livro sagrado dos cristãos. Quando Allah criou o mundo, criou também o tempo. E inventou 1968. E viu Allah que tudo aquilo era muito bom.
Eis algumas frases que foram pichadas nos muros de Paris em Maio de 1968:
"É proibido proibir"
"Trabalhadores de Paris:divirtam-se"
"As fronteiras que se danem"
"Inventem novas perversões sexuais"
"A humanidade nunca será feliz até o último capitalista ser enforcado pelas tripas do último burocrata"
"Abrir as portas dos asilos, das prisões e outros liceus"
"A barricada fecha a rua mas abre o caminho"
"A liberdade do outro amplia a minha ao infinito"
Na França, Le Rouge deu rasteiras cômicas em policiais cisudos. No Vietnã, os vermelhos golpearam ferozmente a tirania do sul. No Brasil, cem mil marcharam contra os pontapés insistentes dos militares golpistas. Nos EUA, os hippies declaravam em uníssono que o bom era fazer amor e não a guerra. E, embalados pela guitarra rebelde de Jimi Hendrix, cuspiram na sociedade de consumo inventando um modo de ser mais lúdico e artesanal.
O mundo fez careta em 1968. Riu de si próprio. Debochou de seus vícios. E descobriu que a existência é possível sem tantas regras inúteis. O bando de Le Rouge pichou num muro em Paris: "É PROIBIDO PROIBIR". E no Brasil, a Tropicalha repetiu, na voz de Caetano : É PROIBIDO PROIBIR.
E por falar em Caetano, 1968 inventou também a "desarrumação" (o texto é meu e invento a palavra que eu quiser). Sim: estar despenteado, se apresentar sem camisa, e usar roupas desbotadas tornaram-se estandartes do ativismo de uma juventude que queria fazer a diferença numa sociedade demasiadamente moralista.
Permitam-me estabelecer um diálogo com o livro sagrado dos cristãos. Quando Allah criou o mundo, criou também o tempo. E inventou 1968. E viu Allah que tudo aquilo era muito bom.
Eis algumas frases que foram pichadas nos muros de Paris em Maio de 1968:
"É proibido proibir"
"Trabalhadores de Paris:divirtam-se"
"As fronteiras que se danem"
"Inventem novas perversões sexuais"
"A humanidade nunca será feliz até o último capitalista ser enforcado pelas tripas do último burocrata"
"Abrir as portas dos asilos, das prisões e outros liceus"
"A barricada fecha a rua mas abre o caminho"
"A liberdade do outro amplia a minha ao infinito"
sábado, 30 de janeiro de 2010
Saudades

Nos tempos de escola sofria frequentes cortes de décimos em minhas notas por escrever demais. Minhas respostas longas e pouco apressadas eram diagnosticadas como "falta de capacidade de síntese". Gastei muito tempo e empreguei grande esforço para aprender a ser suficientemente objetiva e breve.
E não é que quando, enfim, consegui aprender, já era hora de desaprender o cruel exercício da síntese? Sim: tão logo ingressei na universidade, minhas breves respostas orgulhosamente apresentadas aos mestres foram recriminadas. Dessa vez, o diagnóstico era: incapacidade de aprofundar na temática proposta.
Gastei todo o primeiro período experimentando então o retorno aos longos textos. E minhas notas foram me sorrindo cada vez mais.
Até que no segundo período, por razões pessoais, meu coração ficou pequeno. E meus textos também encolheram. Ficaram também cinzentos e mal educados. Eu não queria papo. Nem ler. Muito menos, escrever. Foi então que pude experimentar a ternura, a serenidade do saudoso professor Marco Antônio de Oliveira Pais.
Em uma das avaliações da disciplina HISTÓRIA MEDIEVAL, recebi do professor Marco Antônio o seguinte comentário:
"SUA RESPOSTA MAIS PARECE UM TELEGRAMA"
Detalhe: minha prova não tinha nota. Nenhum número, nem mesmo um merecido ZERO constava no cabeçalho. Somente o oportuno comentário em caneta vermelha.Eu não tinha nota porque Marco Antônio havia decidido me dar uma segunda chance. "VOCÊ TEM MAIS O QUE DIZER SOBRE CARLOS MAGNO", insistiu.
Lembro-me com carinho e enorme saudades do Marco Antônio. Certo dia, nos contou que era estudante da UNB nos tempos de chumbo da Ditadura Militar. Contou-nos consternado que presenciou a invasão daquela universidade um dia após o golpe de 1964. Falou-nos também do quanto havia achado difícil se adaptar à vida na Espanha por ocasião do seu doutorado.
Marco Antônio possuía um estilo bem peculirar: o caminhar lento combinava perfeitamente com a palidez das camisas que usava e com a elegância do suspensório e do chapéu que o acompanhavam sempre. Era um estilo desses que não se vê jamais pelas ruas.
Quando terminávamos o segundo período, soubemos que Marco Antônio estava muito doente. Mas mesmo adoecido, Marco Antônio não deixava jamais de comparecer às aulas.
Lembro-me, como se fosse hoje, de um dia em que o encontrei no corredor dos consultórios da psicologia, na própria FAFICH. Eu aguardava o horário de uma consulta que eu tinha e o vi caminhando em direção a um dos consultórios. Ele estava pensativo. Não parecia triste ou temeroso. Somente pensativo.
Alguns meses depois desse ocorrido, fui, juntamente com mais duas amigas de sala, visitar o Marco Antônio na residência dele. Ele já estava bem mais fraco e já não comparecia mais à faculdade. Mas apesar das circunstâncias, foi uma visita agradável. Com entusiasmo, ele fez questão de nos contar a história de alguns dos livros que exibia orgulhoso em sua estante. A biblioteca dele nos fascinou. E ele parecia, naquele instante, haver recobrado todo vigor perdido para nos contar com euforia como adquiriu alguns dos títulos e por que tinha tanto apreço por alguns deles.
Sinto hoje grande orgulho por ter sido aluna desse formidável medievalista. Um intelectual fenomenal e um professor indescritível.
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
MIMULUS

Misture num caldeirão mágico, daqueles cujos limites ao fundo não se pode ver, uma boa dose de poesia, dança, elegância e estilo. Eis o que, para mim, representa a MIMULUS CIA. DE DANÇA.
Assisti pela primeira vez a um espetáculo da MIMULUS há muitos anos atrás, quando minha irmã ainda frequentava as aulas de dança de salão da escola e me chamou para assistir a um dos shows montados pelo Jomar. Lembro-me de que me encantei com o CASINO (salsa dançada em grupo). Naquele tempo, os shows da MIMULUS eram quase todos no galpão da própria escola. As roupas dos bailarinos eram bem mais simples e havia menos recursos cênicos ao longo das apresentações. Muita coisa parece ter mudado de lá pra cá: os cenários ganharam mais adereços e magia; a performance ganhou mais ousadia, os bailarinhos ganharam mais intrepidez e os roteiros ganharam mais cor e brilho. Mas o interessante é que o talento daquela gente já se revelava formidável desde os tempos de "figurino simples". Eles são fantásticos.
Nos dias 30/01 e 31/01, a MIMULUS estará no Grande Teatro do Palácio das Artes nos deliciando com o espetáculo "Do lado esquerdo de quem sobe". Sem dúvida alguma, estarei na platéia. Graças ao programa de POPULARIZAÇÃO DO TEATRO E DA DANÇA, assistir a esses fantásticos bailarinos nos dias 30 e 31 é bastante acessível. E garanto que vale à pena.
segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
TOLERÂNCIA

Gosto de ler blogs bem escritos. Ainda que seus autores expressem pontos de vista totalmente diferentes dos meus. E não me irrito quando me deparo com idéias contrárias às minhas. Só me irrita uma coisa: A INTOLERÂNCIA de qualquer tipo (sobretudo a intolerância religiosa).
E lamentavelmente, foi com essa forma de intolerância que me deparei ao ler um texto de um blog que admiro muito, mas que acabou me decepcionando feio.
Eis alguns trechos do referido texto:
" Um irmão em Cristo muito amigo nosso trabalha com treinamento de missionários e evangelização do mundo mulçumano. Ele me enviou uma mensagem dizendo que um dos DVDs do DT está sendo transmitido por satélite em um país mulçumano, traduzido por legendas na língua deles!
Este é um dos países ainda mais fechados para a pregração do Evangelho publicamente, mas o Senhor Jesus tem Se revelado a muitos, e multidões têm se convertido e frequentam cultos clandestinos para adorar e crescer espiritualmente, junto a outros irmãos na fé.
[...]
Oremos para que muitos sejam tocados pelo Espírito Santo ao assistirem a transmissão. Amém."
Seria aceitável que a autora veiculasse críticas à maneira como alguns líderes muçulmanos administram a relação entre os fiéis e Allah. A crítica à IGREJA, seja ela qual for, é aceitável e compreensível. Voltaire teceu ácidas críticas à Igreja católica no século XVIII. Mas jamais critiou a FÉ CATÓLICA. Erasmo de Rotterdam foi severo em seus escritos ao afirmar que a igreja não é digna da confiança dos fiéis, mas tão somente as sagradas escrituras devem ser tomadas como fonte da verdade.
Criticar a igreja não agride a fé de um fiel. Mas criticar a CRENÇA de um determinado segmento de fé é algo condenável e inadmissível, sobretudo no período em que vivemos em que tentamos sepultar preconceitos de toda espécie.
Por que os muçulmanos precisam se convencer de que Jesus é filho de Deus e de que ele foi crucificado para redimir a humanidade do pecado? Eu não entendo por que não posso crer que Jesus não passa de um PROFETA.
Por que os muçulmanos precisam crer na Bíblia? O Corão me basta e é nele que escolhi crer.
Por que os muçulmanos precisam crer na Trindade?
Seria tão mais fácil que cristãos, judeus, muçulmanos, budistas, hindus, animistas se aceitassem mutuamente. E se aceitar significa se despir de toda e qualquer intenção de MODIFICAR A FÉ do outro.
O radicalismo religioso e a insistência por parte de alguns grupos religiosos de se auto-proclamarem detentores da verdade foram os equívocos humanos que mais exterminaram.
A esse respeito, lembrei-me agora de um caso ocorrido no Caribe no século XVI. Quando os espanhois desembarcaram nas ilhas antilhanas, deram início ao PROJETO CATEQUIZADOR. Um determinado índio resistente à catequização e à presença dos espanhois na região (chamava-se Hatuay), foi capturado pelos espanhois e coagido à aceitar a Cristo como único e suficiente salvador. Mediante a resistência de Hatuay à aceitação do cristianismo, o pobre índio foi levado ao patíbulo para ser queimado vivo em praça pública. Pouco antes de acenderem a fogueira, os bondosos carrascos deram a Hatuay uma última chance:
- Se você aceitar a Cristo como filho de Deus e como seu salvador, sua alma subirá aos céus, tão logo as chamas destruam o seu corpo. Do contrário, sua alma padecerá eternamente no inferno.
Hatuay perguntou então ao seu algoz:
- Onde estão os cristãos que já morreram?
- No céu - respondeu com intrepidez o algoz.
- Então, não aceito a Cristo. Se os cristãos que matam em nome da fé, que destroem em nome de Deus, estão no céu, eu quero estar em outro lugar. Ainda que esse lugar seja o inferno.
A intolerância religiosa fere, angustia e mata. Por que alimentá-la então? Convido a autora do referido texto a refletir sobre isso. E a exercitar uma palavrinha mágica, a saber, "ALTERIDADE".
Tenho amigas cristãs e as admiro muito. E eu as admiro porque apesar de serem cristãs genuínas, me aceitam como eu sou.
Esclareço que esse é um texto contra a intolerância e não contra o cristianismo ou contra qualquer outro segmento de fé.
quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
"Casamentos" possíveis

Outro dia assisti a uma propaganda de TV formidável. Formidável e simples, o que, na minha humilde opinião, outorga ao publicitário um mérito enorme. A graciosa propaganda (que você certamente já teve também o privilégio de assistir) trazia uma sucessão de imagens daquilo que de mais "mineiro" há entre nós: montanhas, gente de sorriso doce e terno, cachoeiras simpáticas e praças acolhedoras.
Mas a sucessão de cenas que, sem dúvida alguma, é uma graça, acabou se revelando tão somente o adorno da canção cantada por Fernanda Takai.
Vai diminuindo a cidade
Vai aumentando a simpatia
Quanto menor a casinha ai ai
Mais sincero o 'bom dia' [...]
O vídeo e canção se associaram como se um houvesse sido criado unicamente para o outro. Um casamento indissolúvel.
Gostei tanto da singeleza da canção que, como criança, fui correndo à caça de um CD da Fernanda Takai. Pois bem: comprei um e estou em lua-de-mel com ele. A minha canção predileta do álbum que adquiri é a "Odeon". Mas estou convicta de uma coisa: não gosto de jazz. "Odeon" fica bem melhor como "choro". E a leltra composta por Vinícius, retira de "Odeon" a possibilidade de se executá-la em stacatto, o que não achei muito legal.
Coisa difícil de entender não é? A melodia é linda e a letra, perfeita. Mas não houve matrimônio suficientemente harmônico entre ambas. Se na canção que tanta graça traz à propaganda sobre Minas, um casamento (entre imagens e áudio) foi fácil , o mesmo não ocorreu com "Odeon". Na minha humilde opinião, a melodia de "Odeon" foi feita para viver na solidão: sem letra.
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