
Cada qual tem uma maneira diferente de lidar com a própria tristeza. A minha, embora estranha, me acalenta bem: gosto de ler histórias melancólicas. É assim que "faço sala" pra essa visita inconveniente que vem sempre sem convite.
Há bastante tempo atrás, saí do trabalho bem "pra baixo". Não hesitei. Fui até a livraria onde costumo sempre passar pra ver quais as novidades em títulos e de lá, passeando pelas prateleiras, liguei para a "Quel" (grande amiga e excelente professora de português). Pedi a indicação de uma "obra melancólica": "- Quero ler uma história triste, Quel. Daquelas capazes de fazer o homem mais viril e casca dura chorar".
Foi então que naquele dia, passei a ter uma relação de amor e fidelidade com "CAMPO GERAL", contida na obra MANUELZÃO E MIGUILIM, de Guimarães Rosa. De lá pra cá, sempre que estou triste, leio trechos de CAMPO GERAL. Não importa que eu já quase saiba de cor os diálogos. Me faz bem reencontrar Miguilim. Gostaria tanto que ele existisse de verdade...
E quanto à "Quel", lembro-me perfeitamente de quando fazíamos uma disciplina juntas lá na Federal.Cursávamos DIDÁTICA na mesma classe. O trabalho final da "Quel" começava com uma foto linda em que ela, ainda bebê, sorria nos braços da mãe que a deixou órfã aos 11 anos de idade. Abaixo da foto, estava uma frase que depois reconheci facilmente ao ler CAMPO GERAL. Era uma frase de Miguilim: " Mãe, por que é, pra que é que acontece tudo?" .
Foi lendo CAMPO GERAL que aprendi a amar GUIMARÃE ROSA. Nesse ano de 2008, Guimarães completaria 100 anos de idade. Ainda que não existisse "Grande Sertão: Veredas" , seria mesmo assim eternamente grata a esse exímio escritor que me deu Miguilim como amigo nas horas tristes.
"Miguilim entrou, empurrando os outros: o que feito uma loucura ele naquele momento sentiu, parecia mais uma repentina esperança. O Dito, morto, era a mesma coisa que quando vivo, Miguilim pegou na mãozinha morta dele. Soluçava de engasgar, sentia as lágrimas quentes, maiores que seus olhos. (...) Miguilim sentou no chão, num canto, chorava, não queria esbarrar de chorar, nem podi(...)"(Guimarães Rosa em CAMPO GERAL- MANUELZÃO E MIGUILIM)
" O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa,sossega e depois desinquieta.O que ela quer da gente é coragem"
(Guimarães Rosa)




