sábado, 30 de janeiro de 2010

Saudades


Nos tempos de escola sofria frequentes cortes de décimos em minhas notas por escrever demais. Minhas respostas longas e pouco apressadas eram diagnosticadas como "falta de capacidade de síntese". Gastei muito tempo e empreguei grande esforço para aprender a ser suficientemente objetiva e breve.

E não é que quando, enfim, consegui aprender, já era hora de desaprender o cruel exercício da síntese? Sim: tão logo ingressei na universidade, minhas breves respostas orgulhosamente apresentadas aos mestres foram recriminadas. Dessa vez, o diagnóstico era: incapacidade de aprofundar na temática proposta.

Gastei todo o primeiro período experimentando então o retorno aos longos textos. E minhas notas foram me sorrindo cada vez mais.

Até que no segundo período, por razões pessoais, meu coração ficou pequeno. E meus textos também encolheram. Ficaram também cinzentos e mal educados. Eu não queria papo. Nem ler. Muito menos, escrever. Foi então que pude experimentar a ternura, a serenidade do saudoso professor Marco Antônio de Oliveira Pais.

Em uma das avaliações da disciplina HISTÓRIA MEDIEVAL, recebi do professor Marco Antônio o seguinte comentário:

"SUA RESPOSTA MAIS PARECE UM TELEGRAMA"

Detalhe: minha prova não tinha nota. Nenhum número, nem mesmo um merecido ZERO constava no cabeçalho. Somente o oportuno comentário em caneta vermelha.Eu não tinha nota porque Marco Antônio havia decidido me dar uma segunda chance. "VOCÊ TEM MAIS O QUE DIZER SOBRE CARLOS MAGNO", insistiu.

Lembro-me com carinho e enorme saudades do Marco Antônio. Certo dia, nos contou que era estudante da UNB nos tempos de chumbo da Ditadura Militar. Contou-nos consternado que presenciou a invasão daquela universidade um dia após o golpe de 1964. Falou-nos também do quanto havia achado difícil se adaptar à vida na Espanha por ocasião do seu doutorado.

Marco Antônio possuía um estilo bem peculirar: o caminhar lento combinava perfeitamente com a palidez das camisas que usava e com a elegância do suspensório e do chapéu que o acompanhavam sempre. Era um estilo desses que não se vê jamais pelas ruas.

Quando terminávamos o segundo período, soubemos que Marco Antônio estava muito doente. Mas mesmo adoecido, Marco Antônio não deixava jamais de comparecer às aulas.

Lembro-me, como se fosse hoje, de um dia em que o encontrei no corredor dos consultórios da psicologia, na própria FAFICH. Eu aguardava o horário de uma consulta que eu tinha e o vi caminhando em direção a um dos consultórios. Ele estava pensativo. Não parecia triste ou temeroso. Somente pensativo.

Alguns meses depois desse ocorrido, fui, juntamente com mais duas amigas de sala, visitar o Marco Antônio na residência dele. Ele já estava bem mais fraco e já não comparecia mais à faculdade. Mas apesar das circunstâncias, foi uma visita agradável. Com entusiasmo, ele fez questão de nos contar a história de alguns dos livros que exibia orgulhoso em sua estante. A biblioteca dele nos fascinou. E ele parecia, naquele instante, haver recobrado todo vigor perdido para nos contar com euforia como adquiriu alguns dos títulos e por que tinha tanto apreço por alguns deles.

Sinto hoje grande orgulho por ter sido aluna desse formidável medievalista. Um intelectual fenomenal e um professor indescritível.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

MIMULUS


Misture num caldeirão mágico, daqueles cujos limites ao fundo não se pode ver, uma boa dose de poesia, dança, elegância e estilo. Eis o que, para mim, representa a MIMULUS CIA. DE DANÇA.

Assisti pela primeira vez a um espetáculo da MIMULUS há muitos anos atrás, quando minha irmã ainda frequentava as aulas de dança de salão da escola e me chamou para assistir a um dos shows montados pelo Jomar. Lembro-me de que me encantei com o CASINO (salsa dançada em grupo). Naquele tempo, os shows da MIMULUS eram quase todos no galpão da própria escola. As roupas dos bailarinos eram bem mais simples e havia menos recursos cênicos ao longo das apresentações. Muita coisa parece ter mudado de lá pra cá: os cenários ganharam mais adereços e magia; a performance ganhou mais ousadia, os bailarinhos ganharam mais intrepidez e os roteiros ganharam mais cor e brilho. Mas o interessante é que o talento daquela gente já se revelava formidável desde os tempos de "figurino simples". Eles são fantásticos.

Nos dias 30/01 e 31/01, a MIMULUS estará no Grande Teatro do Palácio das Artes nos deliciando com o espetáculo "Do lado esquerdo de quem sobe". Sem dúvida alguma, estarei na platéia. Graças ao programa de POPULARIZAÇÃO DO TEATRO E DA DANÇA, assistir a esses fantásticos bailarinos nos dias 30 e 31 é bastante acessível. E garanto que vale à pena.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

TOLERÂNCIA


Gosto de ler blogs bem escritos. Ainda que seus autores expressem pontos de vista totalmente diferentes dos meus. E não me irrito quando me deparo com idéias contrárias às minhas. Só me irrita uma coisa: A INTOLERÂNCIA de qualquer tipo (sobretudo a intolerância religiosa).


E lamentavelmente, foi com essa forma de intolerância que me deparei ao ler um texto de um blog que admiro muito, mas que acabou me decepcionando feio.

Eis alguns trechos do referido texto:

" Um irmão em Cristo muito amigo nosso trabalha com treinamento de missionários e evangelização do mundo mulçumano. Ele me enviou uma mensagem dizendo que um dos DVDs do DT está sendo transmitido por satélite em um país mulçumano, traduzido por legendas na língua deles!

Este é um dos países ainda mais fechados para a pregração do Evangelho publicamente, mas o Senhor Jesus tem Se revelado a muitos, e multidões têm se convertido e frequentam cultos clandestinos para adorar e crescer espiritualmente, junto a outros irmãos na fé.

[...]
Oremos para que muitos sejam tocados pelo Espírito Santo ao assistirem a transmissão. Amém."

Seria aceitável que a autora veiculasse críticas à maneira como alguns líderes muçulmanos administram a relação entre os fiéis e Allah. A crítica à IGREJA, seja ela qual for, é aceitável e compreensível. Voltaire teceu ácidas críticas à Igreja católica no século XVIII. Mas jamais critiou a FÉ CATÓLICA. Erasmo de Rotterdam foi severo em seus escritos ao afirmar que a igreja não é digna da confiança dos fiéis, mas tão somente as sagradas escrituras devem ser tomadas como fonte da verdade.

Criticar a igreja não agride a fé de um fiel. Mas criticar a CRENÇA de um determinado segmento de fé é algo condenável e inadmissível, sobretudo no período em que vivemos em que tentamos sepultar preconceitos de toda espécie.

Por que os muçulmanos precisam se convencer de que Jesus é filho de Deus e de que ele foi crucificado para redimir a humanidade do pecado? Eu não entendo por que não posso crer que Jesus não passa de um PROFETA.

Por que os muçulmanos precisam crer na Bíblia? O Corão me basta e é nele que escolhi crer.

Por que os muçulmanos precisam crer na Trindade?


Seria tão mais fácil que cristãos, judeus, muçulmanos, budistas, hindus, animistas se aceitassem mutuamente. E se aceitar significa se despir de toda e qualquer intenção de MODIFICAR A FÉ do outro.

O radicalismo religioso e a insistência por parte de alguns grupos religiosos de se auto-proclamarem detentores da verdade foram os equívocos humanos que mais exterminaram.

A esse respeito, lembrei-me agora de um caso ocorrido no Caribe no século XVI. Quando os espanhois desembarcaram nas ilhas antilhanas, deram início ao PROJETO CATEQUIZADOR. Um determinado índio resistente à catequização e à presença dos espanhois na região (chamava-se Hatuay), foi capturado pelos espanhois e coagido à aceitar a Cristo como único e suficiente salvador. Mediante a resistência de Hatuay à aceitação do cristianismo, o pobre índio foi levado ao patíbulo para ser queimado vivo em praça pública. Pouco antes de acenderem a fogueira, os bondosos carrascos deram a Hatuay uma última chance:

- Se você aceitar a Cristo como filho de Deus e como seu salvador, sua alma subirá aos céus, tão logo as chamas destruam o seu corpo. Do contrário, sua alma padecerá eternamente no inferno.

Hatuay perguntou então ao seu algoz:

- Onde estão os cristãos que já morreram?

- No céu - respondeu com intrepidez o algoz.

- Então, não aceito a Cristo. Se os cristãos que matam em nome da fé, que destroem em nome de Deus, estão no céu, eu quero estar em outro lugar. Ainda que esse lugar seja o inferno.


A intolerância religiosa fere, angustia e mata. Por que alimentá-la então? Convido a autora do referido texto a refletir sobre isso. E a exercitar uma palavrinha mágica, a saber, "ALTERIDADE".

Tenho amigas cristãs e as admiro muito. E eu as admiro porque apesar de serem cristãs genuínas, me aceitam como eu sou.


Esclareço que esse é um texto contra a intolerância e não contra o cristianismo ou contra qualquer outro segmento de fé.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

"Casamentos" possíveis


Outro dia assisti a uma propaganda de TV formidável. Formidável e simples, o que, na minha humilde opinião, outorga ao publicitário um mérito enorme. A graciosa propaganda (que você certamente já teve também o privilégio de assistir) trazia uma sucessão de imagens daquilo que de mais "mineiro" há entre nós: montanhas, gente de sorriso doce e terno, cachoeiras simpáticas e praças acolhedoras.

Mas a sucessão de cenas que, sem dúvida alguma, é uma graça, acabou se revelando tão somente o adorno da canção cantada por Fernanda Takai.


Vai diminuindo a cidade
Vai aumentando a simpatia
Quanto menor a casinha ai ai
Mais sincero o 'bom dia' [...]


O vídeo e canção se associaram como se um houvesse sido criado unicamente para o outro. Um casamento indissolúvel.

Gostei tanto da singeleza da canção que, como criança, fui correndo à caça de um CD da Fernanda Takai. Pois bem: comprei um e estou em lua-de-mel com ele. A minha canção predileta do álbum que adquiri é a "Odeon". Mas estou convicta de uma coisa: não gosto de jazz. "Odeon" fica bem melhor como "choro". E a leltra composta por Vinícius, retira de "Odeon" a possibilidade de se executá-la em stacatto, o que não achei muito legal.

Coisa difícil de entender não é? A melodia é linda e a letra, perfeita. Mas não houve matrimônio suficientemente harmônico entre ambas. Se na canção que tanta graça traz à propaganda sobre Minas, um casamento (entre imagens e áudio) foi fácil , o mesmo não ocorreu com "Odeon". Na minha humilde opinião, a melodia de "Odeon" foi feita para viver na solidão: sem letra.