
Nos tempos de escola sofria frequentes cortes de décimos em minhas notas por escrever demais. Minhas respostas longas e pouco apressadas eram diagnosticadas como "falta de capacidade de síntese". Gastei muito tempo e empreguei grande esforço para aprender a ser suficientemente objetiva e breve.
E não é que quando, enfim, consegui aprender, já era hora de desaprender o cruel exercício da síntese? Sim: tão logo ingressei na universidade, minhas breves respostas orgulhosamente apresentadas aos mestres foram recriminadas. Dessa vez, o diagnóstico era: incapacidade de aprofundar na temática proposta.
Gastei todo o primeiro período experimentando então o retorno aos longos textos. E minhas notas foram me sorrindo cada vez mais.
Até que no segundo período, por razões pessoais, meu coração ficou pequeno. E meus textos também encolheram. Ficaram também cinzentos e mal educados. Eu não queria papo. Nem ler. Muito menos, escrever. Foi então que pude experimentar a ternura, a serenidade do saudoso professor Marco Antônio de Oliveira Pais.
Em uma das avaliações da disciplina HISTÓRIA MEDIEVAL, recebi do professor Marco Antônio o seguinte comentário:
"SUA RESPOSTA MAIS PARECE UM TELEGRAMA"
Detalhe: minha prova não tinha nota. Nenhum número, nem mesmo um merecido ZERO constava no cabeçalho. Somente o oportuno comentário em caneta vermelha.Eu não tinha nota porque Marco Antônio havia decidido me dar uma segunda chance. "VOCÊ TEM MAIS O QUE DIZER SOBRE CARLOS MAGNO", insistiu.
Lembro-me com carinho e enorme saudades do Marco Antônio. Certo dia, nos contou que era estudante da UNB nos tempos de chumbo da Ditadura Militar. Contou-nos consternado que presenciou a invasão daquela universidade um dia após o golpe de 1964. Falou-nos também do quanto havia achado difícil se adaptar à vida na Espanha por ocasião do seu doutorado.
Marco Antônio possuía um estilo bem peculirar: o caminhar lento combinava perfeitamente com a palidez das camisas que usava e com a elegância do suspensório e do chapéu que o acompanhavam sempre. Era um estilo desses que não se vê jamais pelas ruas.
Quando terminávamos o segundo período, soubemos que Marco Antônio estava muito doente. Mas mesmo adoecido, Marco Antônio não deixava jamais de comparecer às aulas.
Lembro-me, como se fosse hoje, de um dia em que o encontrei no corredor dos consultórios da psicologia, na própria FAFICH. Eu aguardava o horário de uma consulta que eu tinha e o vi caminhando em direção a um dos consultórios. Ele estava pensativo. Não parecia triste ou temeroso. Somente pensativo.
Alguns meses depois desse ocorrido, fui, juntamente com mais duas amigas de sala, visitar o Marco Antônio na residência dele. Ele já estava bem mais fraco e já não comparecia mais à faculdade. Mas apesar das circunstâncias, foi uma visita agradável. Com entusiasmo, ele fez questão de nos contar a história de alguns dos livros que exibia orgulhoso em sua estante. A biblioteca dele nos fascinou. E ele parecia, naquele instante, haver recobrado todo vigor perdido para nos contar com euforia como adquiriu alguns dos títulos e por que tinha tanto apreço por alguns deles.
Sinto hoje grande orgulho por ter sido aluna desse formidável medievalista. Um intelectual fenomenal e um professor indescritível.


