Falamos sobre a morte por duas vezes. Na segunda delas, assistíamos ao filme "Quando Nietche chorou" e diante do olhar de reprovação do Bruno, interrompi uma cena importante pra dizer que eu estava de acordo com a concepção de CÉU apresentada naquele longa.
Ele concordou comigo que o céu realmente devia ser particular; que existem tantos céus quantos sonhos e desejos humanos diferentes. Foi então que ousamos "aprofundar" nossa conversa. Eu disse como gostaria que fosse o MEU céu e ele, como gostaria que fosse o DELE: muita cerveja, uma grande TV com jogo do Galo 24 hs por dia, uma piscina bem grande debaixo de um céu bem limpo e algumas bandas de rock à disposição de seus ouvidos exigentes.
Foi assim, dessa maneira tão despretenciosa e descontraída que falamos de algo tão grave.
O término do nosso noivado aconteceu 2 meses após essa conversa. Nos tornávamos a partir de então, AMIGOS. Só.
E qual não foi meu espanto ao receber a notícia de que ele havia perdido o controle da direção do carro em que estava? Não houve tempo pra expectativas positivas. A morte foi instantânea e ainda tínhamos tanto a conversar...
No dia seguinte ao velório, chovia muito à noite e só o que eu queria, era ir ao cemítério e arrancá-lo de onde ele havia sido enterrado. Eu não suportava a dor de imaginá-lo só debaixo de uma tempestade tão angustiante. Muito embora eu tivesse a certeza de que a essência de quem ele foi já não estava mais ali, eu queria me entregar à insanidade de desenterrá-lo e abraçá-lo e dizer que eu estava ali e que ele não precisava temer nada.
Em meio a essa angústia tão insistente e atrevida, lembrei-me do "CÉU" que ele criou pra si quando assistíamos "Quando Nietche chorou". Um céu com bastante cerveja gelada, jogo do galo todo o tempo e uma piscina bem gostosa. Quero imaginar que ele esteja agora vendo o galo fazer muitos gols. E que no intervalo do primeiro para o segundo tempo, ele dê um mergulho caprichado numa piscina bem grande. Quero imaginá-lo transbordando de alegria num lugar assim, que ele decidiu um dia chamar de CÉU.
Segue abaixo o lindo texto de homenagem carinhosamente feito pela Taty e lido na Missa de Sétimo dia:
Pessoas entram na sua vida por uma razão, durante uma estação ou uma vida inteira sempre deixando marcas importantes. Estamos todos aqui hoje por causa do nosso amigo Bruno, que entrou em nossas vidas por alguma razão que transcende nossa ínfima capacidade de analisar as tortuosas e tempestivas vias desse mundo. Durante 28 anos Bruno, foi filho, irmão e amigo marcando de maneira definitiva nossas vidas.
Comecemos pelo Bruno “filho” que no dia 25 de setembro de 1980 veio ao mundo para trazer alegria aos seus pais e parentes. Aquela criança encantada e iluminada por Deus receberia o nome de Bruno César Santos Vale e com o passar dos anos foi transmitindo paz e amor àqueles que de alguma forma necessitavam de carinho, força espiritual, emocional ou até mesmo física. A ternura e o amor sempre fluíram de maneira recíproca entre Bruno e sua família e o que mais marcou e simbolizou esta relação de amor não foram os simples momentos de alegria, mas os momentos difíceis; foram noites e noites de dedicação, carinho e preocupação de sua mãe e seus familiares, cuidando e lutando contra os problemas de saúde do pequenino Bruno que cresceria forte e saudável.
Então a criança cresceu e o Bruno “irmão” com seu jeitinho marrento de ser, sempre discutindo com suas irmãs e fazendo aquelas birrinhas normais de criança quando querem alguma coisa; acho que assim todos nós aqui fomos um dia neh?! E ele estava lá, crescendo, se tornando cada vez mais teimoso, turrão, prestativo e amoroso, ocupando seu papel na família, dando orgulho e espalhando e retribuindo todo o amor dedicado incondicionalmente ao longo de sua formação.
Ahhh agora vem o mais hilário e importante dos vários Brunos, o Bruno “amigo”, pois sabemos que amigos a gente não compra, a gente vai conquistando aos poucos cada amigo com nosso jeito de ser. Hoje podemos ver quanta amizade esse nosso Bruno fez ao longo de sua jornada. Ele estava sempre presente quando algum amigo precisava de consolo ou até mesmo quando um amigo fazia algo de errado; foram inúmeras as vezes que ele deve ter dado um puxão de orelha em algum de nós aqui ou até mesmo soltado aquele famoso “só pode neh?!” diante de alguma burrada nossa ou até mesmo pra não perder a oportunidade de nos zuar.
Mas o Bruno “amigo” que nos dava apoio e estava sempre do nosso lado, mesmo que em muitas ocasiões se mostrasse forte, também precisava de atenção e carinho. E foi em um belo dia que o vi chorar como uma criança por causa de um amor perdido, que percebi o quão doce e verdadeiro era aquele nosso grande amigo turrão. É, até as pessoas mais fortes necessitam de um colo, e era nesse momento que conhecíamos o Bruno “namorado ou até mesmo noivo”, sempre dedicado e ciumento com aquelas que estavam ao seu lado, preocupando-se até mesmo com o tamanho de suas roupas; o que em inúmeras ocasiões fez suas namoradas até mesmo trocarem o modelito.
Nosso bruno tinha sempre razão e ficava estressado e nervoso quando alguém contrariava as suas opiniões.....Soltava aquele clássico “Menino, eu sei do que eu to falando, você quer que eu te prove?!” e mesmo você provando que ele estava errado, ele nunca aceitava seu erro. Mas não era sua tão distinta teimosia que o fazia especial, mas sim seu humor e alegria que sempre cativaram quem estivesse ao seu lado. Ele sempre tinha uma piadinha na ponta da língua, seja qual fosse a ocasião; não há aqui quem nunca tenha sido pego por essas piadas ou ganhado algum apelido carinhoso.Não podemos esquecer das suas risadas únicas e inesquecíveis que faziam todos chorarem, mesmo em alguns casos sem motivo algum. Meu Deus quantas saudades!!!
É meus amigos estamos aqui hoje com nossos corações cheios de lembranças unidos pelo amor que sentíamos pelo nosso Bruno, seja ele o Bruno filho, irmão, amigo ou namorado. Nesse momento só temos a agradecer pelos seus ouvidos sempre disponíveis, mesmo quando só tínhamos besteiras a dizer, pela sua mão amiga e pela sua cumplicidade durante longos anos, pois muitos que hoje aqui se encontram compartilham da sua companhia desde a infância e nela cresceram como pessoas melhores.
Obrigado por ter sido um amigo fiel e um filho dedicado. Obrigado até mesmo pelas implicâncias que nos faziam refletir e pelas verdades que muitas vezes fingíamos não conhecer.
A razão pela qual você entrou em nossas vidas é desconhecida, e infelizmente você já cumpriu o seu dever e teve que partir, mas sabemos hoje que nossas necessidades e desejos foram atendidos. O seu trabalho nesse mundo foi concluído, mas ainda assim sentimos um gosto de quero mais. Não sabíamos que iria doer tanto, mas hoje Deus está com você e você está num lugar bem melhor.
Você se foi cedo demais, e ficamos aqui nos perguntando “Porque será que os bons morrem jovens?! ”É difícil dizer ADEUS, mas todos que hoje aqui se encontram estão orando por você e de alguma forma nossas preces serão atendidas. Despedimos-nos aqui com um singelo “até breve ou um até qualquer dia”, pois vamos nos encontrar um dia e com certeza numa bem melhor!
ADEUS MEU AMIGO, NÓS AMAMOS VOCÊ!
