segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

TOLERÂNCIA


Gosto de ler blogs bem escritos. Ainda que seus autores expressem pontos de vista totalmente diferentes dos meus. E não me irrito quando me deparo com idéias contrárias às minhas. Só me irrita uma coisa: A INTOLERÂNCIA de qualquer tipo (sobretudo a intolerância religiosa).


E lamentavelmente, foi com essa forma de intolerância que me deparei ao ler um texto de um blog que admiro muito, mas que acabou me decepcionando feio.

Eis alguns trechos do referido texto:

" Um irmão em Cristo muito amigo nosso trabalha com treinamento de missionários e evangelização do mundo mulçumano. Ele me enviou uma mensagem dizendo que um dos DVDs do DT está sendo transmitido por satélite em um país mulçumano, traduzido por legendas na língua deles!

Este é um dos países ainda mais fechados para a pregração do Evangelho publicamente, mas o Senhor Jesus tem Se revelado a muitos, e multidões têm se convertido e frequentam cultos clandestinos para adorar e crescer espiritualmente, junto a outros irmãos na fé.

[...]
Oremos para que muitos sejam tocados pelo Espírito Santo ao assistirem a transmissão. Amém."

Seria aceitável que a autora veiculasse críticas à maneira como alguns líderes muçulmanos administram a relação entre os fiéis e Allah. A crítica à IGREJA, seja ela qual for, é aceitável e compreensível. Voltaire teceu ácidas críticas à Igreja católica no século XVIII. Mas jamais critiou a FÉ CATÓLICA. Erasmo de Rotterdam foi severo em seus escritos ao afirmar que a igreja não é digna da confiança dos fiéis, mas tão somente as sagradas escrituras devem ser tomadas como fonte da verdade.

Criticar a igreja não agride a fé de um fiel. Mas criticar a CRENÇA de um determinado segmento de fé é algo condenável e inadmissível, sobretudo no período em que vivemos em que tentamos sepultar preconceitos de toda espécie.

Por que os muçulmanos precisam se convencer de que Jesus é filho de Deus e de que ele foi crucificado para redimir a humanidade do pecado? Eu não entendo por que não posso crer que Jesus não passa de um PROFETA.

Por que os muçulmanos precisam crer na Bíblia? O Corão me basta e é nele que escolhi crer.

Por que os muçulmanos precisam crer na Trindade?


Seria tão mais fácil que cristãos, judeus, muçulmanos, budistas, hindus, animistas se aceitassem mutuamente. E se aceitar significa se despir de toda e qualquer intenção de MODIFICAR A FÉ do outro.

O radicalismo religioso e a insistência por parte de alguns grupos religiosos de se auto-proclamarem detentores da verdade foram os equívocos humanos que mais exterminaram.

A esse respeito, lembrei-me agora de um caso ocorrido no Caribe no século XVI. Quando os espanhois desembarcaram nas ilhas antilhanas, deram início ao PROJETO CATEQUIZADOR. Um determinado índio resistente à catequização e à presença dos espanhois na região (chamava-se Hatuay), foi capturado pelos espanhois e coagido à aceitar a Cristo como único e suficiente salvador. Mediante a resistência de Hatuay à aceitação do cristianismo, o pobre índio foi levado ao patíbulo para ser queimado vivo em praça pública. Pouco antes de acenderem a fogueira, os bondosos carrascos deram a Hatuay uma última chance:

- Se você aceitar a Cristo como filho de Deus e como seu salvador, sua alma subirá aos céus, tão logo as chamas destruam o seu corpo. Do contrário, sua alma padecerá eternamente no inferno.

Hatuay perguntou então ao seu algoz:

- Onde estão os cristãos que já morreram?

- No céu - respondeu com intrepidez o algoz.

- Então, não aceito a Cristo. Se os cristãos que matam em nome da fé, que destroem em nome de Deus, estão no céu, eu quero estar em outro lugar. Ainda que esse lugar seja o inferno.


A intolerância religiosa fere, angustia e mata. Por que alimentá-la então? Convido a autora do referido texto a refletir sobre isso. E a exercitar uma palavrinha mágica, a saber, "ALTERIDADE".

Tenho amigas cristãs e as admiro muito. E eu as admiro porque apesar de serem cristãs genuínas, me aceitam como eu sou.


Esclareço que esse é um texto contra a intolerância e não contra o cristianismo ou contra qualquer outro segmento de fé.

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