domingo, 11 de julho de 2010

Um verdadeiro "saco de gatos"


Chico começou e George Orwell completou. Sei que a narrativa sobre a opressão da bicharada não ocorreu nessa mesma ordem. Mas é impressionante como é possível alinhavar as duas preciosas fábulas.
Nos Saltimbancos, Chico Buarque denunciou de maneira formidavelmente lúdica a opressão sofrida pela “Bicharia” que, enfim, de tão subjugada, transforma tudo em um “saco de gatos”:

Bicharia (Chico Buarque)

Au, au, au। Hi-ho hi-ho.

Miau, miau, miau। Cocorocó.
O animal é tão bacana
Mas também não é nenhum banana.
Au, au, au. Hi-ho hi-ho.
Miau, miau, miau. Cocorocó.
Quando a porca torce o rabo
Pode ser o diabo
E ora vejam só.
Au, au, au. Cocorocó.

Era uma vez
(E é ainda)
certo país
(E é ainda)
Onde os animais
Eram tratados como bestas
(São ainda, são ainda)
Tinha um barão
(Tem ainda)
Espertalhão
(Tem ainda)
Nunca trabalhava
E então achava a vida linda
(E acha ainda, e acha ainda)

Puxa, jumento
(Só puxava)
Choca galinha
(Só chocava)
Rápido, cachorro
Guarda a casa, corre e volta
(Só corria, só voltava).
Mas chega um dia
(Chega um dia)
Que o bicho chia
(Bicho chia)
Bota pra quebrar
E eu quero ver quem paga o pato
Pois vai ser um saco de gatos



Em “Revolução dos Bichos”, Orwell atesta que Chico estava certo: “Mas chega um dia / Que o bicho chia”। E aí então, a “Revolução” se inicia no celeiro. Orwell, em “Revolução dos Bichos”, dá voz e poder à bicharada. Os humanos são derrotados em um levante liderado pelos porcos da fazenda.

O lamentável é Orwell considerar que uma Revolução tão justa tenha sido decorrente de um devaneio. Em sua narrativa, Orwell considera que a idéia da revolução nasceu de um SONHO do velho Major- o porco.
Uma revolução que vislumbre a igualdade nunca é fruto de um devaneio, por mais que não se alcance, com ela, os resultados esperados. Não há nada mais racional do que almejar a igualdade. A disparidade, essa sim é irracional.

Mas discordar de trechos da fábula não me faz admirar menos "A Revolução dos Bichos". De maneira formidavelmente lúcida, Orwell "coloca o dedo na ferida" e descortina as contradições e insuficiências do socialismo real e do processo revolucinário russo.

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