domingo, 29 de junho de 2008

Sobre Guimarães e sobre dias tristes...


Cada qual tem uma maneira diferente de lidar com a própria tristeza. A minha, embora estranha, me acalenta bem: gosto de ler histórias melancólicas. É assim que "faço sala" pra essa visita inconveniente que vem sempre sem convite.


Há bastante tempo atrás, saí do trabalho bem "pra baixo". Não hesitei. Fui até a livraria onde costumo sempre passar pra ver quais as novidades em títulos e de lá, passeando pelas prateleiras, liguei para a "Quel" (grande amiga e excelente professora de português). Pedi a indicação de uma "obra melancólica": "- Quero ler uma história triste, Quel. Daquelas capazes de fazer o homem mais viril e casca dura chorar".


Foi então que naquele dia, passei a ter uma relação de amor e fidelidade com "CAMPO GERAL", contida na obra MANUELZÃO E MIGUILIM, de Guimarães Rosa. De lá pra cá, sempre que estou triste, leio trechos de CAMPO GERAL. Não importa que eu já quase saiba de cor os diálogos. Me faz bem reencontrar Miguilim. Gostaria tanto que ele existisse de verdade...


E quanto à "Quel", lembro-me perfeitamente de quando fazíamos uma disciplina juntas lá na Federal.Cursávamos DIDÁTICA na mesma classe. O trabalho final da "Quel" começava com uma foto linda em que ela, ainda bebê, sorria nos braços da mãe que a deixou órfã aos 11 anos de idade. Abaixo da foto, estava uma frase que depois reconheci facilmente ao ler CAMPO GERAL. Era uma frase de Miguilim: " Mãe, por que é, pra que é que acontece tudo?" .
Foi lendo CAMPO GERAL que aprendi a amar GUIMARÃE ROSA. Nesse ano de 2008, Guimarães completaria 100 anos de idade. Ainda que não existisse "Grande Sertão: Veredas" , seria mesmo assim eternamente grata a esse exímio escritor que me deu Miguilim como amigo nas horas tristes.
"Miguilim entrou, empurrando os outros: o que feito uma loucura ele naquele momento sentiu, parecia mais uma repentina esperança. O Dito, morto, era a mesma coisa que quando vivo, Miguilim pegou na mãozinha morta dele. Soluçava de engasgar, sentia as lágrimas quentes, maiores que seus olhos. (...) Miguilim sentou no chão, num canto, chorava, não queria esbarrar de chorar, nem podi(...)"(Guimarães Rosa em CAMPO GERAL- MANUELZÃO E MIGUILIM)



" O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa,sossega e depois desinquieta.O que ela quer da gente é coragem"
(Guimarães Rosa)



quinta-feira, 26 de junho de 2008

"Sous le ciel de Paris"



Sous le ciel de Paris - Gréco Juliette

Sous le ciel de paris
s'envole une chanson
elle est née d'aujourd'hui
dans le cœur d'un garçon
sous le ciel de paris
marchent des amoureux
leur bonheur se construit
sur un air fait pour eux...

terça-feira, 24 de junho de 2008

Jen-Paul Sartre




"Um amor, uma carreira, uma revolução: outras tantas coisas que se começam sem saber como acabarão". (Jean-Paul Sartre)

segunda-feira, 23 de junho de 2008

É Deus quem cria o homem ou o homem quem cria Deus?

Catedral de Notre Dame (Paris)



Tratamos Deus muitas vezes como uma massinha de modelar como se pudéssemos dar a Ele a forma que DESEJAMOS que Ele tenha num dado momento. Invertemos a ordem da criação. Conforme afirmou Rubem Alves, mudamos "Gênesis": "E O HOMEM CRIOU DEUS A SUA IMAGEM E SEMELHANÇA".
Tenho pena do "Deus" de alguns... Ele só protagoniza momentos tristes e embaraçosos. Nas situações de conquistas, o Criador passa a exercer um papel secundário, perdendo assim todo o seu brilho e toda a sua glória.
Creio em Deus como um Pai justo e sensato. E que por ter dotado o homem da virtude da inteligência, confiou a ele LIBERDADE e RESPONSABILIDADE.
Creio num Deus que criou homens e não bonecos.

domingo, 22 de junho de 2008


Se não fosse pela cor da blusa, nem eu mesma saberia distinguir qual sou eu. Decifre, ou serás devorado pela Esfinge. Rsrs...
Bom, das duas, uma é "pacificadora"... a outra, "revolucionária em potencial"
Das duas, uma é "historiadora"... a outra, "também.
Uma tem risadas insistentes e contagiantes... a outra, também.
Uma ia fazer Publicidade, a outra... Direito.
Uma é meio desastrada, a outra, absolutamente estabanada.
Uma vê a vida colorida, a outra, já viu dessa forma.
Uma usa pircing, a outra, tem tatuagem.
Uma tem um namorado de 1,92 m. A outra, tem um noivo lindo que ama bonés.
Uma adora Brasil Colonial. A outra, curte Revolução cubana.
Uma é diplomata. A outra, militante.
Hum... chega de dicas...
"Decifra-me ou devoro-te".
Obs: Paulita, agradeço a Deus por tê-la como essa espetacular amiga com a qual posso contar sempre.

sábado, 21 de junho de 2008

Qualidade de vida que passa pela EDUCAÇÃO








Quando eu e a Ivy chegamos à Basiléia, perguntamos à nossa anfitriã (uma brasileira casada com um suiço) se ela não sentia saudades do Brasil. A resposta (negativa) veio rápida e sem vacilações, o que me deixou um tanto assustada. Meu susto se diluiu quando a explicação se completou: "-A qualidade de vida que tenho aqui eu não teria jamais no Brasil".
Devo confessar que aquela afirmação me feriu um pouco. Advoguei a causa da "genialidade" do MEU PAÍS, tão bem analisada na crônica de Alcântara machado.
Mas depois de 3 dias permanecendo naquela charmosa cidade suiça, começei a concordar com a nossa anfitriã: a limpeza das ruas, a educação no trânsito, o respeito ao espaço público,a pontualidade e eficiência na prestação de serviços, ... toda aquela perfeição me deixou constrangida. Sim: a pefeição sempre nos constrange. Julgava-me não merecedora de todo aquele bem-estar: acho que é uma síndrome brasileira.
Bom, mas a organização daquela cidade fronteiriça se revelou menos uma questão de captital do que uma quetão cultural. Notávamos nos suiços algo que não é tão comum no Brasil: a afeição pela regra; o zelo pelo cumprimento da norma. As ciclovias cobrem grande parte da cidade da Basiléia e o espaço demarcado para os ciclistas, no passeio, não é JAMAIS violado por um pedestre, ainda que não haja sequer a sombra de uma bicicleta que se aproxime. O espaço é RESPEITADO e ponto final.
Buzinas de automóveis raramente são ouvidas. A lei da paciência impera sobre a lei da pressa. Uma questão cultura.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

"Santiago ensanguentada"




"La Shascona", Santiago-Chile



Plaza de Armas, Santiago-Chile


Numa visita que fiz a "La Shascona", uma das residências onde viveu Pablo Neruda, ouvi do guia um consternado comentário sobre o poeta chileno: "-Neruda morreu de desgosto! Sim: quando os militares destituíram Allende, Neruda desistiu de lutar contra o câncer".

Neruda havia participado ativamente da campanha presidencial que deu vitória a Salvador Allende ( primeiro presidente SOCIALISTA eleito no nosso continente).

Mas os ventos não foram favoráveis: sopraram impiedosos e implacáveis contra o presidente eleito, levando-o ao suicídio naquele cinzento 11 de setembro de 1973. O corpo de Allende tornava-se apenas mais uma matéria morta em meio aos escombros do La Moneda.

Santiago tornou-se "sepulcro caiado". Pinochet se encarregou de entregar aos chilenos, uma capital reformada, charmosa e elegante. Mas que escondia em si, nos discretos quartéis e repartições militares, os gritos dos infelizes presos políticos entregues à torturas dilacerantes para os quais a morte seria um socorro oportuno.

Quando o golpe aconteceu, a casa de Neruda foi metralhada por militares. Alguns dias depois, Neruda era hospitalizado em razão de complicações do câncer. O velório do poeta ocorreu na mesma casa antes metralhada pelos cães-de-guarda de Pinochet. De "La Schascona" saiu o cortejo de Neruda.

A morte natural resgatou Neruda de uma realidade que talvez esse grande poeta não suportaria. Certamete o "câncer" doeu menos em Neruda do que doeria ver o Chile sob o jugo do terror de Pinochet.

Abaixo, trechos de Neruda, um poeta fascinado pelo mar, muito embora nunca tenha aprendido a nadar...


"Quantas igrejas tem o céu?

As lágrimas que não se choram
esperam em pequenos lagos?

É verdade que no formigueiro
os sonhos são obrigatórios?

Quando o preso pensa na luz
é a mesma que te ilumina?

Já pensaste de que cor
é o abril dos enfermos?

Onde encontrar um sino
que soe dentro dos teus sonhos?

A quem posso perguntar
o que fazer neste mundo?

Por que não amanhece na Bolívia
desde a morte de Guevara?


Quando dura um rinoceronte
depois de ser enternecido?

Sofre mais o que espera sempre
que aquele que nunca esperou ninguém?

Onde vão as coisas do sonho?
Vão para o sonho dos outros?

E o pai que vive nos sonhos
volta a morrer quando despertas?

Qual o trabalho forçado
de Hitler no inferno?

Pinta paredes ou cadáveres?
ou fareja o gás de seus mortos?

Lhes dão de comer as cinzas
de tantos meninos calcinados?


Há algo mais tolo na vida
que chamar-se Pablo Neruda? "

(Livro das perguntas- Pablo Neruda)