quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

OS DONOS DA CASA






Fui visitar na semana passada a Feira de artesanato que acontece anualmente na Gameleira. O piso superior dessa vez foi todo reservado aos índios pataxós que, como de costume nessa Feira anual, expuseram seus produtos e exibiram, em alguns momentos, suas danças. Os índios usavam credenciais no pescoço. Era norma da organização do evento.

Que credencial portava Cabral quando no 22 de abril atracou em Porto Seguro? Teria o comandante dito a que veio? E em nome de quem? Ah sim: De Deus. Isso justifica tudo: até o extermínio.


Acreditamvam os piedosos cristãos europeus dos tempos das descobertas que quando os muçulmanos invadiram a Europa no século VIII, o demônio foi por eles trazido e passoua rondar o continente europeu. Vieram então as expediçõs Cruzadas e os bravos cavaleiros cristãos expulsaram os mouros da Europa, e com elex, satanás.


E não é que Satanás é um bicho atrevido e persistente? Expulso da Europa, veio habitar a América. E tornou-se senhor dos ameríndios. A América tornou-se então "diabólica".


Mas graças aos céus que existiam corações compassi vos e tementes no além Tejo. Que vieram com a benção do Nosso Senhor exorcizar os nativos do além mar.


E foi assim que, como bem relatou Fernando Pessoa, Deus, no mar, expelhou os céus.



sexta-feira, 27 de novembro de 2009

"Fora Collor"


Cá pra nós: se "educar" foi o que a escola fez comigo, quero para os meus filhos uma escola de "deseducar". Quero uma escola que os faça duvidar, que os leve a querer transformar. Quero que sejam educados para que encontrem as incertezas desse mundo que se mostra tão pretenciosamente previsível.

Lembrei-me, ao ler uma reportagem sobre nosso incorruptível senador Fernando Collor, de quando a coisa ficou feia para o lado do então "caçador de marajás" em 1993. Naquela ocasião, eu cursava a sétima série no Colégio Batista, uma escola bem intencionada mas demasiadamente conservadora. Lembro-me de termos tomado conhecimento, certa manhã, de que muitos estudantes de Belo Horizonte haviam se deslocado para a Praça Sete para protestarem, de caras pintadas, contra as denúncias de corrupção envolvendo o presidente Collor e seu ex-tesoureiro de campanha, PC Farias. Planejamos então deixarmos a sala de aula para nos unirmos a jovens como nós que, em uníssono, gritavam "FORA COLLOR".

Pois bem: nossa expectativa se frustrou em poucos minutos. Da direção do Colégio chegou a informação de que não seríamos autorizados a cruzarmos os muros da escola para nos unirmos àquela fantástica manifestação cívica. E foi assim que nos privaram de vivenciarmos a "praxis" da cidadania. Foi assim que nos fizeram perder uma boa oportunidade de aprender sobre a "Res-pública". A escola nos privou da educação. Vá entender...

Logo em seguida aos minutos de descontentamento por parte dos alunos "detidos" em suas envelhecidas carteiras, tivemos aula de OSPB (Organização Social e Política do Brasil). Aprendemos sobre a importância de se valorizar os símbolos da pátria. E tivemos boas lições (teóricas) acerca de cidadania. Aprendemos o conceito de "cidadão". Mas a lição maior quem nos deu naquele dia foi o diretor: aprendemos que cidadania é coisa de livro. É coisa de se falar, mas não de se viver.
Hoje, quando em minhas aulas de história trato do conturbado governo Collor, sinto um misto de lamento e raiva. Lamento por não ter podido ter feito parte daquela importante página da história de maneira ativa. E raiva por ter sido vítima de um erro tão irreparável e grave por parte de um sistema educacional que foi incapaz de perceber que, naquele momento, a Praça Sete era muito mais "escola" do que qualquer outro espaço repleto de carteiras chamado de "escola".

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Igreja militante

As preparações de aulas e os trabalhos de faculdade dificultam nossos encontros e bate-papos. Mas as terças-feiras tornaram-se obrigatórias. Nos acompanham em um rápido almoço, temas como teologia (para ela, Deus. Para mim, Allah), cinema, cansaço diante do turbilhão de tarefas ligadas ao trabalho, novelas ou programas de TV, e é claro, HISTÓRIA.

E foi no almoço da semana passada que a Paulinha me trouxe um texto ultra plus master over fantástico sobre a relação entre a Teologia da Libertação e a Revolução Sanditista, na Nicarágua.

Li e reli o texto várias vezes. E a cada leitura, me encantava mais com a postura militante daqueles valorosos sacerdotes taxados pelas ditaduras latino-americanas como "padrecos comunistas".

Não sou cristã, mas tiro o chapéu pra "Teologia da Libertação". Compartilho da opinião de que a igreja possui SIM responsabilidade social. Mesmo porque, uma das "bem-aventuranças" versa muito claramente a esse respeito:

"Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão sasciados".

Achei no texto gentilmente emprestado pela Paulinha uma consideração fantástica. É de Ernesto Cardenal, Ministro da Cultura do Governo Sandinista. Ele entende REVOLUÇÃO como:

"[...] amor. E entendemos por amor o amor ao próximo, ao nos preocuparmos com a alimentação adequada de todos, a melhoria de vida de toda a população, para que tenham uma vida digna, que haja serviço médico para todos, educação e cultura para todos, diversões, a assistência aos anciãos e às crianças.[...] Dizia também Camilo Torres que a revolução é uma tarefa cristã e sacerdotal, e assim o é para mim.[...]" (MORLINA, 2008,p.1)

domingo, 4 de outubro de 2009

Para rir um pouco

Abaixo, duas questões presentes na prova do Enem que seria aplicada no dia 3/10. Quais as habilidades estão sendo avaliadas? Quais competências estão sendo diagnosticadas?

Questão 3

A maioria das declarações do imposto de renda é realizada pela internet, o que garante maior eficiência e rapidez no processamento das informações.

Os serviços oferecidos pelo governo via internet visam:

a) gerar mais despesas aos cofres públicos.
b) criar mais burocracia no relacionamento com o cidadão.
c) facilitar e agilizar os serviços disponíveis.
d) vigiar e controlar os atos dos cidadãos.
e) definir uma política que privilegia a alta sociedade.

Na prova de Ciências Humanas e suas Tecnologias, uma construção gramatical bastante mal feita dificultaria a compreensão por parte do candidato:

Eis um fragmento da questão 49:

A repetição desses hábitos diários pode contribuir para

a) o aumento da disponibilidade de água para a região onde você mora e do custo da água.



Fonte: http://public.inep.gov.br/enem/enem2009_prova2.pdf

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Viva o INEP

Não bastasse a incompetência para a elaboração das provas que têm sido aplicadas aos alunos egressos do ensino médio, o INEP surpreende com outra "boa nova": A PROVA DO ENEM VAZOU. E TERÁ QUE SER ADIADA.


Eu já havia ficado boquiaberta com o SIMULADO lançado pelo INEP. A arte da incoerência e da falta de zelo está fortemente expressa em muitas das questões apresentadas.
Fiquei ainda mais impressionada ao saber que muitos estudantes de Belo Horizonte teriam de se deslocar para fazer a prova do enem em outras cidades (o enem está em conformidade com a democratização da educação que o MEC defende? O MEC arcará com o transporte dos jovens de baixíssima renda?).

Que desordem é essa? Que amadorismo é esse, Sr. Fernando Haddad? Se o Ministério da Educação foi suficientemente astuto para convencer trocentas universidades federais deste país a acatar o enem como processo seletivo, então que o mesmo ministério seja competente o suficiente para criar um EXAME NACIONAL DO ENSINO MÉDIO ao menos razoável e seguro.

É cômodo atacar o VESTIBULAR TRADICIONAL organizado pelas universidades. O difícil, Sr. Haddad, é conseguir criar um processo seletivo tão organizado, transparente, criterioso e eficiente quanto o da COPEVE-UFMG, por exemplo.

Lamento muito que o ENEM esteja sendo aceito pela maior parte das Universidades Federais desse país. E lamento poque, pelo menos até então, as questões do Enem são de PÉSSIMA QUALIDADE. Elas são confusas, mal escritas, trazem conceitos equivocados e textos enormes no enunciado e que não auxiliam na resolução da questão.

Meu consolo é o fato de a maior universidade de Minas (a UFMG) não ter adotado o Enem como processo seletivo. É satisfatório que seja assim pois as provas da UFMG são quase sempre muito bem feitas. Se comparadas às últimas provas do Enem, a UFMG traz a mais absoluta exelência na "arte de elaborar questões".


Bom, fico por aqui esperando notícias acerca dessa baderna toda.

E deixo o meu desabafo: TENHO PREGUIÇA DO MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO.

domingo, 13 de setembro de 2009

Cadeira número 1

Foi com muita alegria que assisti, ontem, à cerimônia de posse do Flávio na Academia de Letras de Pará de Minas.

E compareci com tanta euforia não pelo fato de ele estar ocupando uma posição inegavelmente respeitada e valorizada no contexto intelectual da cidade.

Minha euforia se devia ao fato de eu refletir sobre a trajetória que estava sendo "coroada" naquele ato.

O Flávio não bajula ninguém. Ele não é o que os outros querem que ele seja. Ele nunca pretendeu ostentar títulos ou ser admirado. Ele não negocia seu modo de pensar para parecer polido em um ciclo de discussão. O Flávio é erudito sem ser pedante. É incrivelmente competente sem ser obstinado pela competição. É solidário com os que dele se aproximam com sede do saber.

O Flávio ama a pesquisa de uma forma fantástida. É um historiador incansável. E um escritor fenomenal.

E tudo isso faz com que o título "imortal" seja absolutamente merecido.

domingo, 26 de julho de 2009

26 de Julho - Parte II


Acabo de "percorrer" com aflição os sites de dois jornais oficiais cubanos (Granma, e Juventud Rebelde). Nenhum dos dois traz notícias de Fidel, o que me causou bastante estranheza, já que Fidel jamais deixou de se manifestar publicamente num dia tão importante como o 26 de Julho.


Apenas Raul estava presente no Ato do DIA DA REBELDIA NACIONAL, cuidadosamente preparado na cidade de Holguin (diga-se de passagem, cidade natal de Fidel e Raul).


Esse silêncio da imprensa oficial cubana com relação ao Fidel dilacera todos aqueles que, como eu, entendem que, impor ao Comandante um ostracismo tão implacável, é a maior tragédia política do século XXI.


Eu havia planejado postar aqui uma "PROCLAMA" do Castro. Diante do silêncio cortante do comandante, postarei então um discurso que Fidel proferiu no ano de 1997, quando recebeu, na cidade de Santa Clara, os restos mortais de Che Guevara.


Li esse discurso pela primeira vez quando estive no museu do Che, em Santa Clara. E lembro-me , como se fosse hoje, do quanto essas palavras de Fidel me emocionaram.



DISCURSO PRONUNCIADO POR FIDEL CASTRO RUZ, PRESIDENTE DE LA REPUBLICA DE CUBA, EN LA CEREMONIA CENTRAL POR EL XXX ANIVERSARIO DE LA CAIDA EN COMBATE DEL GUERRILLERO HEROICO Y SUS COMPAÑEROS Y LA INHUMACION DE SUS RESTOS, EN EL MONUMENTO DE LA CIUDAD DE SANTA CLARA, VILLA CLARA, EL 17 DE OCTUBRE DE 1997.


Familiares de los compañeros caídos en combate;
Invitados;
Villaclareños;
Compatriotas (APLAUSOS):
Con emoción profunda vivimos uno de esos instantes que no suelen repetirse.


No venimos a despedir al Che y sus heroicos compañeros. Venimos a recibirlos.


Veo al Che y a sus hombres como un refuerzo, como un destacamento de combatientes invencibles, que esta vez incluye no solo cubanos sino también latinoamericanos que llegan a luchar junto a nosotros y a escribir nuevas páginas de historia y de gloria.


Veo además al Che como un gigante moral que crece cada día, cuya imagen, cuya fuerza, cuya influencia se han multiplicado por toda la tierra.


¿Cómo podría caber bajo una lápida?


¿Cómo podría caber en esta plaza?


¿Cómo podría caber únicamente en nuestra querida pero pequeña isla?


Solo en el mundo con el cual soñó, para el cual vivió y por el cual luchó hay espacio suficiente para él.


Más grande será su figura cuanta más injusticia, más explotación, más desigualdad, más desempleo, más pobreza, hambre y miseria imperen en la sociedad humana.


Más se elevarán los valores que defendió cuanto más crezca el poder del imperialismo, el hegemonismo, la dominación y el intervencionismo, en detrimento de los derechos más sagrados de los pueblos, especialmente los pueblos débiles, atrasados y pobres que durante siglos fueron colonias de Occidente y fuentes de trabajo esclavo.


Más resaltará su profundo sentido humanista cuantos más abusos, más egoísmo, más enajenación; más discriminación de indios, minorías étnicas, mujeres, inmigrantes; cuantos más niños sean objeto de comercio sexual u obligados a trabajar en cifras que ascienden a cientos de millones; cuanta más ignorancia, más insalubridad, más inseguridad, más desamparo.


Más descollará su ejemplo de hombre puro, revolucionario y consecuente mientras más políticos corrompidos, demagogos e hipócritas existan en cualquier parte.


Más se admirará su valentía personal e integridad revolucionaria mientras más cobardes, oportunistas y traidores pueda haber sobre la tierra; más su voluntad de acero mientras más débiles sean otros para cumplir el deber; más su sentido del honor y la dignidad mientras más personas carezcan de un mínimo de pundonor humano; más su fe en el hombre mientras más escépticos; más su optimismo mientras más pesimistas; más su audacia mientras más vacilantes; más su austeridad, su espíritu de estudio y de trabajo, mientras más holgazanes despilfarren en lujos y ocios el producto del trabajo de los demás.


Che fue un verdadero comunista y hoy es ejemplo y paradigma de revolucionario y de comunista.


Che fue maestro y forjador de hombres como él. Consecuente con sus actos, nunca dejó de hacer lo que predicaba, ni de exigirse a sí mismo más de lo que exigía a los demás.


Siempre que fue necesario un voluntario para una misión difícil, se ofrecía el primero, tanto en la guerra como en la paz. Sus grandes sueños los supeditó siempre a la disposición de entregar generosamente la vida. Nada para él era imposible, y lo imposible era capaz de hacerlo posible.


La invasión desde la Sierra Maestra a través de inmensos y desprotegidos llanos, y la toma de la ciudad de Santa Clara con unos pocos hombres, dan testimonio entre otras acciones de las proezas de que era capaz.


Sus ideas acerca de la revolución en su tierra de origen y en el resto de Suramérica, pese a enormes dificultades, eran posibles. De haberlas alcanzado, tal vez el mundo de hoy habría sido diferente. Viet Nam demostró que podía lucharse contra las fuerzas intervencionistas del imperialismo y vencerlas. Los sandinistas vencieron contra uno de los más poderosos títeres de Estados Unidos. Los revolucionarios salvadoreños estuvieron a punto de alcanzar la victoria. En Africa el apartheid, a pesar de que poseía armas nucleares, fue derrotado. China, gracias a la lucha heroica de sus obreros y campesinos, es hoy uno de los países con más perspectivas en el mundo. Hong Kong tuvo que ser devuelto después de 150 años de ocupación, que se llevó a cabo para imponer a un inmenso país el comercio de drogas.


No todas las épocas ni todas las circunstancias requieren de los mismos métodos y las mismas tácticas. Pero nada podrá detener el curso de la historia, sus leyes objetivas tienen perenne validez. El Che se apoyó en esas leyes y tuvo una fe absoluta en el hombre. Muchas veces los grandes transformadores y revolucionarios de la humanidad no tuvieron el privilegio de ver realizados sus sueños tan pronto como lo esperaban o lo deseaban, pero más tarde o más temprano triunfaron.


Un combatiente puede morir, pero no sus ideas. ¿Qué hacía un hombre del gobierno de Estados Unidos allí donde estaba herido y prisionero el Che? ¿Por qué creyeron que matándolo dejaba de existir como combatiente? Ahora no está en La Higuera, pero está en todas partes, dondequiera que haya una causa justa que defender. Los interesados en eliminarlo y desaparecerlo no eran capaces de comprender que su huella imborrable estaba ya en la historia y su mirada luminosa de profeta se convertiría en un símbolo para todos los pobres de este mundo, que son miles de millones. Jóvenes, niños, ancianos, hombres y mujeres que supieron de él, las personas honestas de toda la tierra, independientemente de su origen social, lo admiran.


Che está librando y ganando más batallas que nunca.


¡Gracias, Che, por tu historia, tu vida y tu ejemplo!


¡Gracias por venir a reforzarnos en esta difícil lucha que estamos librando hoy para salvar las ideas por las cuales tanto luchaste, para salvar la Revolución, la patria y las conquistas del socialismo, que es parte realizada de los grandes sueños que albergaste! (APLAUSOS.)


Para llevar a cabo esta enorme proeza, para derrotar los planes imperialistas contra Cuba, para resistir el bloqueo, para alcanzar la victoria, contamos contigo (APLAUSOS).


Como ves, esta tierra que es tu tierra, este pueblo que es tu pueblo, esta revolución que es tu revolución, siguen enarbolando con honor y orgullo las banderas del socialismo (APLAUSOS).


¡Bienvenidos, compañeros heroicos del destacamento de refuerzo! ¡Las trincheras de ideas y de justicia que ustedes defenderán junto a nuestro pueblo, el enemigo no podrá conquistarlas jamás! ¡Y juntos seguiremos luchando por un mundo mejor!


¡Hasta la victoria siempre! (EXCLAMACIONES.)
(OVACION)