sábado, 10 de abril de 2010
quinta-feira, 8 de abril de 2010
Dilma

Ainda não escolhi meu candidato às eleições presidenciais deste ano. Mas já sei quem eu NÃO quero ver no Planalto: Dilma Roussef. E por dois motivos: está claro e evidente que nossa querida ex-ministra tem feito uso das inaugurações das obras do PAC para conquistar a maior parcela possível do mercado eleitoral, mesmo fazendo questão de insistir que não passa, por enquanto, de uma pré-candidata.
Nunca uma ex-ministra fez tanta questão de holofotes. Em todas as cerimônias de inauguração de obras do PAC(que tem sido muitas), dividem a cena o nosso querido presidente, e ela, a ex-guerrilheira petista. O engraçado é que não era essa a rotina. Ao longo dos vários anos de governo, nosso presidente-operário inaugurou um turbilhão de obras. E não era praxe de Lula levar Dilma à tira-colo. Só que hoje, a circunstância é diversa. O PT pretende continuar. E pra isso, vale se valer da máquina governamental pra promover determinada candidata. Vale fazer o que não se pode fazer. Aliás, no Brasil, o que é que não vale?
O segundo motivo pelo qual não quero Dilma no Planalto vem logo acima desse texto. A meu ver, admirar a gestão Aécio é não ser capaz de enchergar além da superfície. Afirmar que Aécio foi um "governador exemplar" é a mais perfeita evidência de desprezo pela sociedade mineira. Gostaria que a senhora Dilma fosse apresentada ao contra-cheque de um professor da rede ESTADUAL de ensino daqui de Minas. Ela certamente mudaria a opinião que tem com relação ao nosso ex-governador.
Gostaria que nossa simática Dilma analisasse com bastante cuidado os jornais impressos que circulam em Minas. São verdadeiros panfletos em favor do governo do estado. Como se Minas fosse o melhor lugar do mundo pra se viver. Acho que estou em Passárgada.
Bom, fui petista por um bom tempo. O PT já me encheu de orgulho. Já me deu inúmeras satisfações. Já me surpreendeu positivamente. Mas decidi que o meu voto não pode se pautar na fidelidade a um partido que não tem sido fiel ao princípio da honestidade e da defesa do trabalhador.
sábado, 27 de março de 2010
Cordialidade
Detalhe: na placa do carro, lê-se: "Carro oficial"Foi pesquisando para preparar o curso "Um olhar múltiplo e interpretativo sobre a fonte histórica", que cheguei a essa charge। E adorei. Ela me fez lembrar o bate papo que tive com o Flávio(meu primo) sobre "o homem cordial", classificação criada por Sérgio Buarque de Hollanda para se referir ao povo brasileiro.
"No Brasil, pode dizer-se que só excepcionalmente tivemos um sistema administrativo e um corpo de funcionários puramente dedicados a interesses objetivos e fundados nesses interesses. Ao contrário, é possível acompanhar, ao longo de nossa história, o predomínio constante das vontades particulares que encontram seu ambiente próprio em círculos fechados e pouco acessíveis a uma ordenação impessoal."
Holanda, Sérgio Buarque de। Raízes do Brasil.26 ed.São Paulo: Companhia das Letras,1995, p. 146.
Se eu entendi bem o que vem a ser o "patrimonialismo", inerente a trajetória histórica e cultural do nosso país, eu o vejo nessa charge.
sexta-feira, 26 de março de 2010
Morte

Dia desses assisti a uma entrevista com o ator e diretor Paulo José. Com o mesmo semblante sereno que sempre teve, Paulo José contava ao entrevistador como recebeu o diagnóstico de ser portador do mal de Parkinson. O ator contou que a trágica notícia chegou até ele na sentença apocalíptica do neurologista:
- O mal de Parkinson é uma doença progressiva, degenerativa e irreversível.
A essa tríade aparentemente trágica, Paulo José respondeu com a doçura que só a sabedoria pode dar:
- Mas a VIDA é assim!
Não houve naquele instante lágrimas nem desespero. Não houve lamúrias e nem dramas. Houve compreensão e reflexão.
E é assim que eu acho que deve ser. A degeneração é a evidência de que somos seres viventes "normais". Não há nada trágico na enfermidade. Mesmo se para ela não há cura. Eu fico com o ditado dos antigos: "O que não tem remédio, remediado está".
Adoecer é triste. Não trágico. Adoecer não é absurdo. E morrer doente também não.
Trágico mesmo é a morte que vem embalada em um acidente automobilístico estúpido. E estúpida é a morte que vem em um tiro de revólver, ou em uma rajada metralhada em uma guerra. Isso sim é trágico. Porque não está na ordem natural da existência. Porque invade um ciclo impondo o fim de algo que ainda poderia continuar existindo.
Discordo de Vandré que cantou em compasso quaternário: "a morte, o destino tudo estava fora do lugar e eu vivo pra consertar". Existem mortes inconvenientes, e outras não. Outras vêm porque senão a vida atrofia. E assim, vira morte em vida.
Bão, acho que a modernidade e seus avanços nos trouxeram a pretensão da vida eterna. Não aceitamos mais a dor, a doença, nem o fim. Mesmo sendo esse fim, tão certo quanto ele sempre foi.
- O mal de Parkinson é uma doença progressiva, degenerativa e irreversível.
A essa tríade aparentemente trágica, Paulo José respondeu com a doçura que só a sabedoria pode dar:
- Mas a VIDA é assim!
Não houve naquele instante lágrimas nem desespero. Não houve lamúrias e nem dramas. Houve compreensão e reflexão.
E é assim que eu acho que deve ser. A degeneração é a evidência de que somos seres viventes "normais". Não há nada trágico na enfermidade. Mesmo se para ela não há cura. Eu fico com o ditado dos antigos: "O que não tem remédio, remediado está".
Adoecer é triste. Não trágico. Adoecer não é absurdo. E morrer doente também não.
Trágico mesmo é a morte que vem embalada em um acidente automobilístico estúpido. E estúpida é a morte que vem em um tiro de revólver, ou em uma rajada metralhada em uma guerra. Isso sim é trágico. Porque não está na ordem natural da existência. Porque invade um ciclo impondo o fim de algo que ainda poderia continuar existindo.
Discordo de Vandré que cantou em compasso quaternário: "a morte, o destino tudo estava fora do lugar e eu vivo pra consertar". Existem mortes inconvenientes, e outras não. Outras vêm porque senão a vida atrofia. E assim, vira morte em vida.
Bão, acho que a modernidade e seus avanços nos trouxeram a pretensão da vida eterna. Não aceitamos mais a dor, a doença, nem o fim. Mesmo sendo esse fim, tão certo quanto ele sempre foi.
quarta-feira, 3 de março de 2010
Chavez

Não bastasse ser acusado de dar apoio às FARCs, o presidente Venezuelano Hugo Chavez agora é réu em outro "julgamento" . Dessa vez, os tentáculos de Chavez se mostram mais cumpridos. Chegam ao outro lado do Atlântio. A Folha de São Paulo publicou hoje (dia 3/03/2010) que Chavez é suspeito de dar apoio ao grupo separatista ETA (que luta pela total soberania do povo basco).
Sabe o que penso? Chavez tem sido tratado pela mídia e por algumas diplomacias, como o satanás é tratado por algumas igrejas pentecostais. A culpa é sempre dele. É ele quem sempre faz e acontece. Ele tem muito poder. Cuidado com ele que ele te pega. Não durma no ponto. Em cada esquina há um Chavez na espreita.
Acho que nem Chavez tem ciência de muito do que se atribui a ele.
domingo, 28 de fevereiro de 2010
Culturalismo
O olhar do historiador sobre a história não pode ser indiferente ao indivíduo. Não se pode focar o coletivo e grandioso e nutrir desprezo pelo micro. Da mesma maneira, o olhar do historiador precisa levar em conta que as sociedades humanas constituem não somente um aglomerado de pessoas pertencentes a classes e detentoras de interesses econômicos e políticos. Essas pessoas, é importante que se lembre, têm sonhos. Elas têm medos e expectativas. Têm incertezas. Sofrem de inconformismo ou de resignação.Sofrem de amor ou pela falta dele.
Talvez a voz que mais fortemente tem militado em favor dessa concepção de história seja a de Mary Del Priore. Adoro os textos dela. E as entrevistas também.
A história precisa levar em conta que as evidências que se revelam mais palpáveis são, na verdade, produto de estados de espírito.
A esse respeito, recomendo o filme "Nós que aqui estamos, por vós esperamos".
Eis uma citação presente no filme, e que vai ao encontro desse assunto:
"Em uma guerra, não se matam milhares de pessoas.
Mata-se alguém que adora espaguete,
outro que é gay,
outro que tem uma namorada.
Uma acumulação de pequenas memórias..."
Cristian Boltanski
Talvez a voz que mais fortemente tem militado em favor dessa concepção de história seja a de Mary Del Priore. Adoro os textos dela. E as entrevistas também.
A história precisa levar em conta que as evidências que se revelam mais palpáveis são, na verdade, produto de estados de espírito.
A esse respeito, recomendo o filme "Nós que aqui estamos, por vós esperamos".
Eis uma citação presente no filme, e que vai ao encontro desse assunto:
"Em uma guerra, não se matam milhares de pessoas.
Mata-se alguém que adora espaguete,
outro que é gay,
outro que tem uma namorada.
Uma acumulação de pequenas memórias..."
Cristian Boltanski
AIDS
Há bastante tempo atrás, coisa de séculos e séculos, a Europa Ocidental foi implacavelmente castigada pela epidemia de Peste Negra. Naquele tempo, quem aplicava a sentença era Deus. E Deus disse (mas só os padres escutaram): - É castigo. A Peste vos ceifará porque as transgreções se multiplicaram entre vocês.
Não bastasse atribuir a Peste à ira de Deus, muitos bons cristãos europeus buscavam pretexto pra judiar de judeus, esspalhando que talvez, a maldita peste não fosse castigo divino. Os anti-semitas de plantão daquele tempo botaram a culpa nos judeus (que, aliás, nasceram com o gen da culpa): - Os judeus têm envenenado os poços d'água de toda Europa.Por isso a Europa está doente.
Bão, o que importa é constatar que é velha a mania humana de atribuir enfermidades a pecados. A transgressão traz castigo.
O curioso é perceber que tantos séculos se passaram e a mania permanece. Nos anos 80 o Brasil viveu uma das mais tristes páginas de sua história: a epidemia de AIDS. A falta de cuidado nos bancos de sangue, somada à inexistência de uma campanha efetiva de prevenção, trouxe a contaminação pra muita gente.
Naquele tempo, sobrava conversa fiada acerca da AIDS. E os jornais falavam em "grupos de risco". Quais eram? Hemofílicos, homosexuais, prostitutas e usuários de drogas injetáveis. A beatagem católica então teve um insite: -Tirando os hemofílicos, os demais grupos de risco são grupos faltosos com Deus. Transgressores.
E daí veio a conclusão:ser soropositivo é castigo. Castigo merecido para putas, gays e drogados.
No século XX, pensávamos como no XIV: EPIDEMIA É CASTIGO. É DEUS QUERENDO VARRER A TERRA DOS ÍMPIOS. Mas em meio a tanta baboseira caminhante na mídia e nos bate-papos do cotidiano, emergiu a voz do bom senso, da lucidez e da solidariedade. Herbert de Souza - o Betinho, foi um incansável combatente das práticas de segregação do aidético.
E com aquele corpo frágil, muito aquém da grandeza de suas palavras e idéias, Betinho revelou ao Brasil e ao mundo que mais nocivo que o vírus da AIDS, é o preconceito da sociedade e do poder público com relação aos soropositivos.
Encontrei um texto lindo de Betinho a esse respeito. E gostaria de compartilhá-lo:
O dia da cura
(Betinho)
Numa manhã comum, como qualquer outra, abri o jornal e li a manchete: Descoberta a Cura da AIDS! A princípio fiquei deslocado na cama, como se a terra tivesse saído do lugar e meu quarto estivesse mais à esquerda do que de costume.
Fiquei por um tempo parado, sem saber qual deveria ser o primeiro ato de uma pessoa de novo condenada a viver. Primeiro, certificar-se. Telefonei para o meu médico. Realmente, a notícia era sólida, e o próprio presidente dava declarações na TV americana assumindo a veracidade do fato: dez pacientes em estado avançado da doença haviam tomado o CD2 e não apresentavam nenhum sinal ou sintoma da presença do vírus em seus organismos. Um eficiente viricida fora descoberto. As outras notícias seguiam o mesmo curso. O laboratório do CD2 tivera uma espetacular alta na bolsa de Nova Iorque. Na França, o Instituto Pasteur dizia que outra coincidência acompanhava os caprichos da ciência. Ali também o SD2 estava no forno, quase pronto para ser anunciado. Telefonei para o meu analista. Dei a notícia sobre a cura da AIDS e decidi que só enfrentaria a felicidade nas próximas sessões. Afinal me havia preparado tanto para a morte que a vida agora era um problema.
Do meu lado, Maria ainda dormia e não sabia que nossa vida havia mudado. Casados há 21 anos, os últimos tinham sido um tempo de tensão a cada gripe, mancha na pele, febre sem explicação. O amor feito durante tanto tempo e que havia sido interrompido pelo medo do contágio, do descuido, do imponderável, estava agora ao alcance da vida como um milagre, apesar de meus 56 anos, como costuma insistir um jornal paulista. Pensei comigo mesmo, camisinhas nunca mais! Maria dormia, ainda não sabia da novidade. Ela agora poderia ser viúva de outras coisas mais banais, mais correntes, mais normais. Ela não mais seria a viúva da AIDS. Grandes avanços. Tinha os filhos para avisar. Não mais seriam órfãos da AIDS. O pai agora tinha algo de imortal ou podia morrer como todo os mortais.
A TV continuava a mostrar cenas incríveis em Nova Iorque, e o meu telefone já começava a tocar. Afinal, eu havia sido, durante quase dez anos o entrevistado perfeito para o caso da AIDS: era hemofílico, contaminado e sociólogo. Podia desempenhar três papéis num só tempo e numa só pessoa. Eu era uma espécie de trindade aidética! Iam querer saber o que sentia, o que faria, meus primeiros atos, minhas emoções, minhas reações diante da vida e da normalidade. Imaginava as perguntas: como você se sente agora que é de novo um ser normal? O que vai fazer agora de sua vida? O que efetivamente mudou na sua vida? O que você aprendeu com a AIDS? Você continua a ter raiva do governo? Cheguei a pensar, como Chico Buarque, que daria minha primeira entrevista ao Jô Soares. Afinal, falaria da vida, tomando cerveja!
Ainda na cama, onde, de manhã, gosto de ficar, tive saudades do Henfil e do Chico, e em meio à alegria que já me contagiava, chorei. Por que haviam sofrido tanto e morrido tão fora de hora? Quanto sofrimento inútil, quanta dor que palavras não descrevem. O olhar parado de quem expira. O abandono sem remédio. A fatalidade que nem a morte enterra? Por que logo eles haviam morrido, se eram meus irmãos, a quem telefonava com a certeza de quem acreditava poder fazer isso séculos e séculos seguidos? De repente, ninguém do outro lado da linha. Números riscados numa agenda sem remédio. Ainda a lembrança do Chico no enterro do Henfil, dizendo para mim, entre espanto e humor: hoje é o Henfil, amanhã serei eu, e você irá daqui a 03 anos... Bem, digamos 05!
E hoje estou aqui passados 04 anos, quase 05, lendo essa notícia, e eles todos mortos antes do tempo. Não há remédio para a morte de meus irmãos, que são tantos.
De repente me dou conta de que houve realmente remédio para a AIDS. É hora de levantar, atender os telefonemas, reunir o pessoal da ABIA. Festejar com o pessoal do IBASE. Abrir um champanhe, ou uma cerveja. Telefonar para saber onde estava o tal remédio, como comprá-lo, o preço, o prazo da chegada. Estaria disponível quando, a que preço? Quem poderia comprá-lo?
Algo inusitado acontecia em paralelo. Amigos e amigas, que não suspeitava, me chamavam para dizer que eles também eram soropositivos, porque agora havia cura. Uns diziam que suas vidas sexuais eram um caos, mas que agora havia cura. Alguns me chamavam para dizer que iriam começar o tratamento, o controle e a pensar na vida, porque agora havia cura. E, finalmente, outros me diziam que agora poderiam revelar a imprensa sua condição de soropositivos, para servir de exemplo, porque agora havia cura.
De repente, dei-me conta de que tudo havia mudado porque havia cura. Que a idéia da morte inevitável paralisa. Que a idéia da vida mobiliza... Mesmo que a morte seja inevitável, como sabemos. Acordar, sabendo que se vai viver, faz tudo ter sentido de vida. Acordar pensando que se vai morrer faz tudo perder o sentido. A idéia da morte é a própria morte instalada.
De repente, dei-me conta de que a cura da AIDS existia antes mesmo de existir, e de que seu nome era vida. Foi de repente, como tudo acontece.
Não bastasse atribuir a Peste à ira de Deus, muitos bons cristãos europeus buscavam pretexto pra judiar de judeus, esspalhando que talvez, a maldita peste não fosse castigo divino. Os anti-semitas de plantão daquele tempo botaram a culpa nos judeus (que, aliás, nasceram com o gen da culpa): - Os judeus têm envenenado os poços d'água de toda Europa.Por isso a Europa está doente.
Bão, o que importa é constatar que é velha a mania humana de atribuir enfermidades a pecados. A transgressão traz castigo.
O curioso é perceber que tantos séculos se passaram e a mania permanece. Nos anos 80 o Brasil viveu uma das mais tristes páginas de sua história: a epidemia de AIDS. A falta de cuidado nos bancos de sangue, somada à inexistência de uma campanha efetiva de prevenção, trouxe a contaminação pra muita gente.
Naquele tempo, sobrava conversa fiada acerca da AIDS. E os jornais falavam em "grupos de risco". Quais eram? Hemofílicos, homosexuais, prostitutas e usuários de drogas injetáveis. A beatagem católica então teve um insite: -Tirando os hemofílicos, os demais grupos de risco são grupos faltosos com Deus. Transgressores.
E daí veio a conclusão:ser soropositivo é castigo. Castigo merecido para putas, gays e drogados.
No século XX, pensávamos como no XIV: EPIDEMIA É CASTIGO. É DEUS QUERENDO VARRER A TERRA DOS ÍMPIOS. Mas em meio a tanta baboseira caminhante na mídia e nos bate-papos do cotidiano, emergiu a voz do bom senso, da lucidez e da solidariedade. Herbert de Souza - o Betinho, foi um incansável combatente das práticas de segregação do aidético.
E com aquele corpo frágil, muito aquém da grandeza de suas palavras e idéias, Betinho revelou ao Brasil e ao mundo que mais nocivo que o vírus da AIDS, é o preconceito da sociedade e do poder público com relação aos soropositivos.
Encontrei um texto lindo de Betinho a esse respeito. E gostaria de compartilhá-lo:
O dia da cura
(Betinho)
Numa manhã comum, como qualquer outra, abri o jornal e li a manchete: Descoberta a Cura da AIDS! A princípio fiquei deslocado na cama, como se a terra tivesse saído do lugar e meu quarto estivesse mais à esquerda do que de costume.
Fiquei por um tempo parado, sem saber qual deveria ser o primeiro ato de uma pessoa de novo condenada a viver. Primeiro, certificar-se. Telefonei para o meu médico. Realmente, a notícia era sólida, e o próprio presidente dava declarações na TV americana assumindo a veracidade do fato: dez pacientes em estado avançado da doença haviam tomado o CD2 e não apresentavam nenhum sinal ou sintoma da presença do vírus em seus organismos. Um eficiente viricida fora descoberto. As outras notícias seguiam o mesmo curso. O laboratório do CD2 tivera uma espetacular alta na bolsa de Nova Iorque. Na França, o Instituto Pasteur dizia que outra coincidência acompanhava os caprichos da ciência. Ali também o SD2 estava no forno, quase pronto para ser anunciado. Telefonei para o meu analista. Dei a notícia sobre a cura da AIDS e decidi que só enfrentaria a felicidade nas próximas sessões. Afinal me havia preparado tanto para a morte que a vida agora era um problema.
Do meu lado, Maria ainda dormia e não sabia que nossa vida havia mudado. Casados há 21 anos, os últimos tinham sido um tempo de tensão a cada gripe, mancha na pele, febre sem explicação. O amor feito durante tanto tempo e que havia sido interrompido pelo medo do contágio, do descuido, do imponderável, estava agora ao alcance da vida como um milagre, apesar de meus 56 anos, como costuma insistir um jornal paulista. Pensei comigo mesmo, camisinhas nunca mais! Maria dormia, ainda não sabia da novidade. Ela agora poderia ser viúva de outras coisas mais banais, mais correntes, mais normais. Ela não mais seria a viúva da AIDS. Grandes avanços. Tinha os filhos para avisar. Não mais seriam órfãos da AIDS. O pai agora tinha algo de imortal ou podia morrer como todo os mortais.
A TV continuava a mostrar cenas incríveis em Nova Iorque, e o meu telefone já começava a tocar. Afinal, eu havia sido, durante quase dez anos o entrevistado perfeito para o caso da AIDS: era hemofílico, contaminado e sociólogo. Podia desempenhar três papéis num só tempo e numa só pessoa. Eu era uma espécie de trindade aidética! Iam querer saber o que sentia, o que faria, meus primeiros atos, minhas emoções, minhas reações diante da vida e da normalidade. Imaginava as perguntas: como você se sente agora que é de novo um ser normal? O que vai fazer agora de sua vida? O que efetivamente mudou na sua vida? O que você aprendeu com a AIDS? Você continua a ter raiva do governo? Cheguei a pensar, como Chico Buarque, que daria minha primeira entrevista ao Jô Soares. Afinal, falaria da vida, tomando cerveja!
Ainda na cama, onde, de manhã, gosto de ficar, tive saudades do Henfil e do Chico, e em meio à alegria que já me contagiava, chorei. Por que haviam sofrido tanto e morrido tão fora de hora? Quanto sofrimento inútil, quanta dor que palavras não descrevem. O olhar parado de quem expira. O abandono sem remédio. A fatalidade que nem a morte enterra? Por que logo eles haviam morrido, se eram meus irmãos, a quem telefonava com a certeza de quem acreditava poder fazer isso séculos e séculos seguidos? De repente, ninguém do outro lado da linha. Números riscados numa agenda sem remédio. Ainda a lembrança do Chico no enterro do Henfil, dizendo para mim, entre espanto e humor: hoje é o Henfil, amanhã serei eu, e você irá daqui a 03 anos... Bem, digamos 05!
E hoje estou aqui passados 04 anos, quase 05, lendo essa notícia, e eles todos mortos antes do tempo. Não há remédio para a morte de meus irmãos, que são tantos.
De repente me dou conta de que houve realmente remédio para a AIDS. É hora de levantar, atender os telefonemas, reunir o pessoal da ABIA. Festejar com o pessoal do IBASE. Abrir um champanhe, ou uma cerveja. Telefonar para saber onde estava o tal remédio, como comprá-lo, o preço, o prazo da chegada. Estaria disponível quando, a que preço? Quem poderia comprá-lo?
Algo inusitado acontecia em paralelo. Amigos e amigas, que não suspeitava, me chamavam para dizer que eles também eram soropositivos, porque agora havia cura. Uns diziam que suas vidas sexuais eram um caos, mas que agora havia cura. Alguns me chamavam para dizer que iriam começar o tratamento, o controle e a pensar na vida, porque agora havia cura. E, finalmente, outros me diziam que agora poderiam revelar a imprensa sua condição de soropositivos, para servir de exemplo, porque agora havia cura.
De repente, dei-me conta de que tudo havia mudado porque havia cura. Que a idéia da morte inevitável paralisa. Que a idéia da vida mobiliza... Mesmo que a morte seja inevitável, como sabemos. Acordar, sabendo que se vai viver, faz tudo ter sentido de vida. Acordar pensando que se vai morrer faz tudo perder o sentido. A idéia da morte é a própria morte instalada.
De repente, dei-me conta de que a cura da AIDS existia antes mesmo de existir, e de que seu nome era vida. Foi de repente, como tudo acontece.
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