
No trajeto Havana-Granma, parada em Santa Clara para conhecer o mausoléu do Che.

"Ernestito"

Às 5 da manhã, aguardando o início do Ato.

Na estrada

Na "Plaza de los Mártires", logo após o discurso de Fidel

Vendo o dia raiar e esperando o início do Ato

Era óbvio que eu não havia viajado tanto para ver Fidel pela TV. Desacatei com enorme prazer a pessimista senhora.
Ao chegar à Havana, entrei em contato com uma amiga brasileira e que já estava lá há alguns dias. Juntas, alugamos um carro (que batizei de Ernestito) e pegamos a estrada (diga-se de pasagem, a ÚNICA estrada que corta a ilha). Nosso destino agora era Granma. No trajeto, fizemos uma pequena mas fundamental parada em Camaguay, onde moram o Sr. Manolo e a Dona Rosa. Esse simpático casal de veterinários aposentados são pais de uma amiga aqui de BH: a Aniette. Aniette é cubana, mas casada com um brasileiro e residente no Brasil há alguns anos. Em Camaguay, fomos gentilmente recebidos pelo Sr. Manolo que não deixou escapar a oportunidade de se mostar um fiel revolucionário. Dona Rosa nos ofereceu um jantar formidável: Ajiaco (o prato típico cubano). Deixamos algumas encomendas enviadas pela Aniette aos pais, tomamos um banho, e partimos rumo à Granma.
O Sr. Manolo também nos aconselhou desistir de participar do Ato. "Vôces terão que chegar lá de madrugada. É muito cheio". Mas, sem dúvida, a ponderação mais interessante que ouvi veio de Dona Rosa: "Fidel já não diz mais coisa com coisa. Ele já está caduco.".
Nossa obstinação era maior do que qualquer gesto de sensatez. Fomos à Granma. Chegamos à cidade às 4hs da madrugada. O discurso seria às 8 hs , mas devíamos chegar bem antes. Estacionamos o carro numa rua qualquer da pequena cidade de Granma. Logo em seguida fui descobrir que estávamos estacionadas em frente a um CDR (Comitê de Defesa da Reolução). Dormimos de 4hs às 5hs, quando então partimos para a PRAÇA DOS MÁRTIRES, onde seria o Ato 26 de Julho.
Ao chegar lá, embora ainda tivesse bastante escuro e estivéssemos há horas do início do evento, pude começar a experimentar o entusiasmo coletivo da multidão que gritava em côro:
VIVA CUBA!
VIVA O SOCIALISMO!
VIVA FIDEL!
PÁTRIA OU MORTE!
VENCEREMOS!
Todos os que ali estavam erguiam duas pequenas bandeiras que eram distribuídas logo na parte de traz da praça, a todos que chegavam: uma, era a própria bandeira cubana e a outra, em vermelho e preto, era a bandeira do movimento 26 de Julho.
O dia amanheceu e minha expectativa pela chegada de Fidel aumentava de maneira assutadora.
Por volta de 8 ou 8:30hs da manhã, a multidão se mostrou mais agitada. Fidel havia chegado à praça. Eu não podia vê-lo bem. Estávamos muito longe da tribuna. Mas eu podia sentir o calor do afeto coletivo dedicado a ele. Imagine qual foi minha surpreza quando Fidel começou a discursar. Todos os que gritavam, silenciaram. Ninguém se movia. Eu me via, de repente, em meio a uma multidão absolutamente quieta e atenta. A disciplina daquela gente me constrangia. Eu nunca havia visto algo parecido.
E assim foi até o fim. Não se ouvia absolutamente NADA, senão a voz já trôpega e cansada de Fidel. Os únicos momentos em que se ouvia a multidão, eram aqueles em que, um homem negro e muito alto, com uma blusa vermelha e em cima do palanque (creio que se tratava de algum dirigente do PCC), gritava: VIVA FIDEL! A multidão então respondia em coro.
Fidel discursou por quase quatro horas. Um discurso curto, se comparado àqueles que o Comandante venha fazendo desde os tempos da revolução, e que se extendiam, às vezes, por até 8 horas de duração.
Foi um discurso "estatístico". E, pra ser sincera, não sei como Fidel consegue memorizar tantos dados, inclusive, de tantos países africanos e asiáticos. A todo momento, Fidel Castro comparava os indicadores sociais cubanos com os indicadores de outros países periféricos da África e da Ásia. E, a cada vantagem numérica apresentada por Fidel, ouvia-se um : VIVA CUBA! puxado de cima do palanque, pelo tal homem negro com a camisa do partido.
Várias menções foram feitas aos CLUBES DE INFORMÁTICA , criados pelo governo há bem pouco tempo, e que tinham como finalidade , levar o mundo digital a todo o povo cubano. Muitas foram as menções também a um terremoto que havia ocorrido há pouco tempo em Cuba e que, segundo Fidel, não foi capaz de abalar o ânimo do solidário povo cubano.
Ao longo do discurso, eu e minha amiga conseguimos nos aproximar bastante do palanque. Não foi difícil conquistarmos lugares mais à frente. Nós simplismente pedíamos licença e éramos atendidas. O local estava cheio, mas incrivelmente em ordem.
Ao terminar o discurso, saímos da parte principal da Praça. Estávamos muito cansadas, com fome e muita sede. Foi quando a minha amiga decidiu usar um "banheiro público" improvisado na própria praça. Instantes depois, quando nós duas fotografávamos a entrada do banheiro (que chamava a atenção pela insalubridade), fomos surpreendidas por uns 4 homens que se aproximavam bastante nervosos. Descobrimos que eram policiais à paisana e que suspeitavam que fôssemos jornalistas. Esclarecemos que éramos somente turistas. Mas não conseguimos esclarecer por que razão estávamos fotografando um banheiro sujo.
Um dos policiais pediu nosas máquinas. Outro, pediu nossos passaportes. Lembrei-me de que meu passaporte havia ficado no carro, há alguns quilômetros da praça. Isso bastou para que fôssemos levadas, na viatura, até a Secretaria de Imigração onde passamos um bom tempo prestando esclarecimentos.
Confesso que foi o momento mais tenso da viagem. Enquanto esperávamos para conversar com a autoridade da Secretaria, tive a certeza de que seríamos deportadas. Nossa "infração" parecia ser considerada de extrema gravidade, o que nos espantou muito. Nunca imaginei que fotografar um banheiro poderia causar tanta dor de cabeça.
Bom, após longa conversa e graças à lábia da Helê, saímos da Secretaria "ilesas". Partimos então para Santiago. Na trajetória de Granma para Santiago, outro incidente nos esperava. Estávamos muito cansadas, com fome e com sede. Talvez por esse motivo, a Helê cochilou no volante e sofremos um acidente. Não nos machucamos, mas o carro ficou destruído. Isso nos fez perder bastante tempo. Por essa razão, nossa permanência em Santiago foi muito curta. A conta de conhecermos o carnaval da cidade , e de tirarmos algumas fotos em frente ao Quartel Moncada (onde o movimento 26 de julho aconteceu.
Voltamos à Havana enfrentando mais, cerca de 11 ou 12 horas de estrada. O seguro nos forneceu outro carro após o acidente.
Embora esses dois lamentáveis incidentes tenham ocorrido, ainda assim, concluo que VALEU À PENA. Eu faria quase tudo de novo.
Alguns dias depois da ida até Granma e Santiago, quando eu já estava em Havana, me levantei cedo (como de costume) para pegar uma encomenda com a Sra. Maria del Carmen. Ao chegar à região de Vedado, vi que alguma coisa estranha estava acontecendo. Havia muitos militares espalhados pelas ruas. Jipes militares também estavam por todos os cantos.
Ao chegar à casa de Maria Del Carmen, ela me perguntou se eu havia lido o jornal daquel dia: "Fidel Castro foi internado".
Foi então que entendi o "estado de alerta" em que Havana se encontrava. Pela primeira vez, em 49 anos, Fidel se afastava do poder. E isso bastava para que todo o cuidado fosse tomado. A contra-revolução sempre rondou Cuba.
Daquele dia em diante, Fidel Castro não participou de mais atos cívicos e nem mais apareceu em público. Constatei que eu e a Helê, havíamos, no dia 26 de julho, assitido ao ÚLTIMO DIA de discurso de Fidel Castro .
Tudo isso, fez o meu 26 de Julho de 2006, valer à pena.

Olá Vivi!
ResponderExcluirTudo bem?
Que bom que agora tem espaço p comentar aqui! rsrsrs
Gosto muito dos seus textos e este simplesmente é fascinante! Que aventura a sua, viu!!! Com certeza valeu a pena!
Uma jornalista leu seu comentário no meu blog e me pediu seu contato. Então, passei seu email. Desculpe, não ter pedido autorização prévia p vc! Na verdade, depois que caiu a ficha!Ela é de um veículo de credibilidade. Se não quiser falar, acredito q entenderá!
Desculpe a indelicadeza,por favor!
Um abraço!
Vivi,
ResponderExcluirQue experiência legal. Com certeza os incidentes só fizeram de todo a viagem ser ainda mais memorável.
Bjs.
Muito massa a sua viagem!!!
ResponderExcluirli tudo!!!
parabéns!!!