terça-feira, 20 de maio de 2008

ALTERIDADE



"A partir do momento em que me confiro o direito exclusivo de ter razão, usurpo uma função que compete à Divindade" (Mahatma Gandhi)





Ao ler essa frase de Gandhi, lembrei-me de uma canção cristã chamada "Clamor por Cuba", do ministério "CLAMOR PELAS NAÇÕES". Na referida, canção, faz-se uma referência ao governo cubano como um governo "frio e sem coração". Mais adiante, a canção se revela um pouco mais objetiva: "Chega de dor, chega de medo e rancor...", e "por isso nós vamos em nome de Jesus, a este país, pra mostrar que há uma esperança, Cuba pode ser feliz".

Bom, se a intenção do ministério foi a melhor possível ( e não duvido que seja) , o mesmo não se pode dizer da forma como o "Clamor pelas nações" transformou "intenção" em gesto.

Serei objetiva:

1- É no mínimo CURIOSO que um ministério que se diga CRISTÃO se entregue a JULGAMENTOS tão rasos em argumentos. Aliás, é curioso que aqueles que se apresentem como fiéis seguidores das Sagradas Escrituras se comportem de forma avessa a elas. ("Não julgueis para não serdes julgados" : o que os cristãos do "Clamor", tão disciplinados, teriam a dizer sobre isso?).
2- Na referida canção, o ministério "Clamor pelas nações" se refere ao governo de Fidel Castro como "frio e sem coração". Ora! Se esse mesmo ministério entende que o texto bíblico guarda em si a VERDADE revelada por Deus e de forma não metafórica, eis outro paradoxo: há um trecho bíblico (Romanos) em que se diz que toda autoridade debaixo dos céus foi instituída por Deus. Sendo assim, deduz-se que Fidel possui um poder que lhe foi delegado pelo próprio Deus. Como Deus, em sua infinita sabedoria e bondade, instituiria sobre uma nação um governo "FRIO E SEM CORAÇÃO" conforme diz a canção? Algum teólogo poderia me esclarecer essa icógnita?

3- O referido ministério ("Clamor pelas Nações"), na medida em que comercializa CDs em vários países do mundo e veicula essa SUPERFICIAL opinião sobre o governo cubano, priva os cristãos de conhecerem as duas faces da moeda. Transmite-se uma mensagem "mutilada" que se pretende verdadeira.

4- A vaidade e pretensão são claramente expressas na última frase da canção ("Cuba pode ser feliz"). Entendo que o ministério "Clamor pelas nações" veja a si próprio como "redentor" de um povo condenado ao sofrimento. Eu não sabia que esses cristãos possuíam um poder mágico de sondar corações. Não conhecia essa capacidade dos integrantes do "Clamor" de radiografar o estado de espírito dos 11 milhões de cubanos para assim taxá-los como "infelizes".
5- Estive em Cuba em julho de 2006 e não foi um país "infeliz" que encontrei. Tampouco um governo "frio e sem coração". Ao contrário, encontrei um país onde não há mendigos ou famintos. Um país onde o médico é que espera pelo paciente num hospital onde não há filas. Um país em que o ensino de qualidade é garantido a todos e onde se garante aos jovens o incentivo à prática esportiva. Um país em que a vocação do jovem é incentivada o que impede que este se envolva na criminalidade ou na marginalidade.
6- É prudente que se conheça Cuba, sobretudo a história cubana, antes de se tecer PREconceitos contra esta nação. Convido então o autor da infeliz canção a se debruçar sobre algumas obras como "Cuba:passado e presente"; "Y ahora Fidel?" ou "Conversasiones con Fidel". Convido o ministério "Clamor pelas nações" a ESTUDAR um pouco mais a história e a realidade cubanas para que a sabedoria possa orientar seu trabalho missionário.

Um comentário:

  1. Olá Vivi!
    Tudo bem?
    Obrigada por passar no meu blog! Mas, como vc viu, estou passando por uma crise de identidade! rsrsrs

    Boa sorte com o jornalismo! Aliás, você tem talento, gostei do modo como escreve.

    Sobre Cuba, alguns colegas de trabalho, incluse o ligados ao ex-embaixador do Brasil em Cuba, já partilharam comigo sobre o país. Apesar das condições ruins de moradia, transporte, situações de pobreza, entre outros, os cubanos parecem desfrutar de boa educação e saúde.
    Concordo com sua colocação e bom senso crítico!

    Deus abençoe!
    Um abraço!

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