sexta-feira, 9 de maio de 2008

Sobre Henfil


Tomei conhecimento da existência desse fantástico cartunista num dia de ócio, daqueles em que você se dá o direito de simplesmente deslizar os dedos pelo controle remoto da TV sem a pretensão de encontrar algo de interessante. Foi então que em um dos canais, um jornalista de cujo nome nem me lembro, chamou minha atenção narrando com direito a toda dramaticidade imaginável, uma carta de Henfil (que transcrevi logo abaixo).

Uma carta simples e breve, como foi a vida de Henfil. Mas como foi gostoso "invadir" aquele espaço que devia ser só de Dona Maria e seu filho cartunista.
Naquela carta, endereçada à mãe e escrita em 1979, Henfil me fez experimentar por alguns instantes a dor solitária de um exilado. Dor daquele que perdeu o "agasalho" que é a pátria. Dor daquele que vive a solidão na forma mais cruel como esta pode se apresentar. Daquele que se encontra no desamparo de uma cela invisível.

Senti a dor de Henfil. Dor de não poder fazer coisas simples e cotidianas mas que se revelam fundamentais quando somos privados delas. Dor de não ir mais à padaria da esquina todos os dias de manhãzinha como sempre se fazia, dor de não poder estar na casa do amigo saboreando uma feijoada ou jogando truco, dor de não reclamar do trânsito congestionado ou da falta de gols do time predileto. Dor de não sentar á mesa com os pais e irmãos pra tomar um café, sendo o café, o pretexto para longos bate-papos. Dor de não assistir ao telejornal predileto, saudade de ouvir o idioma pátrio.

O exílio é, sem dúvida, uma cela sufocante sem direito à visita, onde a tortura da saudade é a única companheira fiel.

Henfil me conquistou na medida em que busquei outras cartas escritas por ele e da mesma forma endereçadas à mãe. A agressão do exílio não o silenciou. Gente assim, como Henfil, não devia ser tão rara.

Segue a carta de Henfil à Dona Maria:

São Paulo, 11 de abril de 1979.

Mãe,

Não suporto mais a saudade sufocante do meu irmão Betinho. Minha vida segue sem sentido e sem alegrias. Sai um disco do Chico e não consigo me entregar no canto que gostaria de partilhar com ele e com a Maria. O grito de gol fica preso no peito porque me sinto sozinho no Maracanã mais lotado.
Profissionalmente? Estou bem, muito bem. Mas eu queria que eles também se orgulhassem de mim ao receberem o jornal de manhãzinha na porta da casa deles, aqui, como todos. Faltam duas palmas, duas risadas brancas e quentinhas na hora em que as cartas são lidas ou as gracinhas são feitas na "Revista do Henfil".
Perdoa, mãe, mas biscoito de farinha só é gostoso se mastigado olhando nos olhos do irmão que sente na mesma hora a mesma delícia.
A bênção de um dos seus filhos,

Henfil

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