sábado, 20 de fevereiro de 2010

1968


Quando Allah criou o mundo, criou também o tempo. E quis que o ano de 1968 fosse o mais atrevido. E misturou nele entusiasmos e rebeldias. Deu corda na juventude. E sacudiu bastante. E o mundo virou de ponta à cabeça.

Na França, Le Rouge deu rasteiras cômicas em policiais cisudos. No Vietnã, os vermelhos golpearam ferozmente a tirania do sul. No Brasil, cem mil marcharam contra os pontapés insistentes dos militares golpistas. Nos EUA, os hippies declaravam em uníssono que o bom era fazer amor e não a guerra. E, embalados pela guitarra rebelde de Jimi Hendrix, cuspiram na sociedade de consumo inventando um modo de ser mais lúdico e artesanal.

O mundo fez careta em 1968. Riu de si próprio. Debochou de seus vícios. E descobriu que a existência é possível sem tantas regras inúteis. O bando de Le Rouge pichou num muro em Paris: "É PROIBIDO PROIBIR". E no Brasil, a Tropicalha repetiu, na voz de Caetano : É PROIBIDO PROIBIR.

E por falar em Caetano, 1968 inventou também a "desarrumação" (o texto é meu e invento a palavra que eu quiser). Sim: estar despenteado, se apresentar sem camisa, e usar roupas desbotadas tornaram-se estandartes do ativismo de uma juventude que queria fazer a diferença numa sociedade demasiadamente moralista.

Permitam-me estabelecer um diálogo com o livro sagrado dos cristãos. Quando Allah criou o mundo, criou também o tempo. E inventou 1968. E viu Allah que tudo aquilo era muito bom.

Eis algumas frases que foram pichadas nos muros de Paris em Maio de 1968:

"É proibido proibir"
"Trabalhadores de Paris:divirtam-se"
"As fronteiras que se danem"
"Inventem novas perversões sexuais"
"A humanidade nunca será feliz até o último capitalista ser enforcado pelas tripas do último burocrata"
"Abrir as portas dos asilos, das prisões e outros liceus"
"A barricada fecha a rua mas abre o caminho"
"A liberdade do outro amplia a minha ao infinito"

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