quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Café

"Café algum é superior ao café do Brasil"


Dedico esse post a ele. Que é o mais longevo dos africanos. E que me faz companhia em noites de intermináveis leituras. Dedico esse texto a ele que me alenta quando já não tenho unhas a roer ou cabelos a arrancar. Desculpem-me a confissão: sou viciada. Viciada em CAFÉ. O que, a meu ver, é uma insanidade levando-se em conta que vivo num país tropical onde, durante quade todo o ano, o sol escaldante me reveste de um calor infernal.

Mas não tem problema. Troco com desenvoltura e sem pensar duas vezes, um suco ultra gelado por um café bem quentinho, "passado na hora".

Como é que essa moda - a moda da devoção pelo café - pegou em terras tão escaldantes? Brasil, República Dominicana, Nicarágua e Cuba foram, durante grande período de suas histórias, grandes produtores, consumidores e exportadores de café. Os cubanos ousaram até mesmo reverenciar essa bebida mágica em linhas melódicas: quem nunca ouviu falar da clássica canção "Moliendo café" que, ao rítmo de salsa e embalada por uma percussão formidável, se espalhou mundo afora?


Mas por mais que seja hoje universal, meu fiel escudeiro nem sempre foi bem interpretado. Os maometanos, no passado, o olharam com reservas por acreditarem que a enigmática bebida era nociva à lucidez e contrária às leis do profeta Mohammed. Depois, foi a vez dos cristãos encrencarem: por ser bebida de infiéis muçulmanos, o café foi proibido aos cristãos e só obteve clemência quando o Papa Clemente o provou, gostou e aprovou.

De lá pra cá o café viajou muito. Fez amantes em todas as esquinas. E foi pretexto para encontros formais, reconciliações, discussões filosóficas e conversa fiada. Foi teimoso e se recusou a florescer em espaços que lhe foram hostis. Foi assim no Brasil. As primeiras mudas de café que aqui chegaram,vindas da Guiana, foram plantadas no Pará. Mas a planta caprichosa, cheia de vontades e dengos, deu de pirraça. E não vingou. Só aceitou funcionar quando trazida ao Vale do Paraíba.Foi a partir do Vale, que o café deu cotovelada no nosso açúcar empurrando-o para o segundo lugar na nossa pauta de exportações. Sim: no século XIX, o Brasil, que já havia sido a Terra de Santa Cruz, a terra do papagaio e a terra do açúcar, tornou-se a terra do café.

E nos empolgamos tanto, que nos excedemos. Plantávamos café no calçamento. Nas praças, nas grutas e nos alpendres. O café sofreu metástase. E ameaçou nos arruinar. Foi então que tivemos que nos esforçar para convencer os estrangeiros, de que nosso café, muito embora fosse tão café quanto qualquer outro café do planeta, era o melhor. Tarefa difícil.

Foi assim, tentando convencer o mundo a olhar para o nosso café e achar mais graça nele do que nos outros, que foram produzidas propagandas publicitárias no exterior, como essa que antecede esse meu texto.

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