domingo, 28 de fevereiro de 2010

Culturalismo

O olhar do historiador sobre a história não pode ser indiferente ao indivíduo. Não se pode focar o coletivo e grandioso e nutrir desprezo pelo micro. Da mesma maneira, o olhar do historiador precisa levar em conta que as sociedades humanas constituem não somente um aglomerado de pessoas pertencentes a classes e detentoras de interesses econômicos e políticos. Essas pessoas, é importante que se lembre, têm sonhos. Elas têm medos e expectativas. Têm incertezas. Sofrem de inconformismo ou de resignação.Sofrem de amor ou pela falta dele.

Talvez a voz que mais fortemente tem militado em favor dessa concepção de história seja a de Mary Del Priore. Adoro os textos dela. E as entrevistas também.

A história precisa levar em conta que as evidências que se revelam mais palpáveis são, na verdade, produto de estados de espírito.

A esse respeito, recomendo o filme "Nós que aqui estamos, por vós esperamos".


Eis uma citação presente no filme, e que vai ao encontro desse assunto:

"Em uma guerra, não se matam milhares de pessoas.
Mata-se alguém que adora espaguete,
outro que é gay,
outro que tem uma namorada.
Uma acumulação de pequenas memórias..."

Cristian Boltanski

AIDS


Há bastante tempo atrás, coisa de séculos e séculos, a Europa Ocidental foi implacavelmente castigada pela epidemia de Peste Negra. Naquele tempo, quem aplicava a sentença era Deus. E Deus disse (mas só os padres escutaram): - É castigo. A Peste vos ceifará porque as transgreções se multiplicaram entre vocês.

Não bastasse atribuir a Peste à ira de Deus, muitos bons cristãos europeus buscavam pretexto pra judiar de judeus, esspalhando que talvez, a maldita peste não fosse castigo divino. Os anti-semitas de plantão daquele tempo botaram a culpa nos judeus (que, aliás, nasceram com o gen da culpa): - Os judeus têm envenenado os poços d'água de toda Europa.Por isso a Europa está doente.

Bão, o que importa é constatar que é velha a mania humana de atribuir enfermidades a pecados. A transgressão traz castigo.

O curioso é perceber que tantos séculos se passaram e a mania permanece. Nos anos 80 o Brasil viveu uma das mais tristes páginas de sua história: a epidemia de AIDS. A falta de cuidado nos bancos de sangue, somada à inexistência de uma campanha efetiva de prevenção, trouxe a contaminação pra muita gente.

Naquele tempo, sobrava conversa fiada acerca da AIDS. E os jornais falavam em "grupos de risco". Quais eram? Hemofílicos, homosexuais, prostitutas e usuários de drogas injetáveis. A beatagem católica então teve um insite: -Tirando os hemofílicos, os demais grupos de risco são grupos faltosos com Deus. Transgressores.

E daí veio a conclusão:ser soropositivo é castigo. Castigo merecido para putas, gays e drogados.

No século XX, pensávamos como no XIV: EPIDEMIA É CASTIGO. É DEUS QUERENDO VARRER A TERRA DOS ÍMPIOS. Mas em meio a tanta baboseira caminhante na mídia e nos bate-papos do cotidiano, emergiu a voz do bom senso, da lucidez e da solidariedade. Herbert de Souza - o Betinho, foi um incansável combatente das práticas de segregação do aidético.

E com aquele corpo frágil, muito aquém da grandeza de suas palavras e idéias, Betinho revelou ao Brasil e ao mundo que mais nocivo que o vírus da AIDS, é o preconceito da sociedade e do poder público com relação aos soropositivos.

Encontrei um texto lindo de Betinho a esse respeito. E gostaria de compartilhá-lo:


O dia da cura
(Betinho)

Numa manhã comum, como qualquer outra, abri o jornal e li a manchete: Descoberta a Cura da AIDS! A princípio fiquei deslocado na cama, como se a terra tivesse saído do lugar e meu quarto estivesse mais à esquerda do que de costume.

Fiquei por um tempo parado, sem saber qual deveria ser o primeiro ato de uma pessoa de novo condenada a viver. Primeiro, certificar-se. Telefonei para o meu médico. Realmente, a notícia era sólida, e o próprio presidente dava declarações na TV americana assumindo a veracidade do fato: dez pacientes em estado avançado da doença haviam tomado o CD2 e não apresentavam nenhum sinal ou sintoma da presença do vírus em seus organismos. Um eficiente viricida fora descoberto. As outras notícias seguiam o mesmo curso. O laboratório do CD2 tivera uma espetacular alta na bolsa de Nova Iorque. Na França, o Instituto Pasteur dizia que outra coincidência acompanhava os caprichos da ciência. Ali também o SD2 estava no forno, quase pronto para ser anunciado. Telefonei para o meu analista. Dei a notícia sobre a cura da AIDS e decidi que só enfrentaria a felicidade nas próximas sessões. Afinal me havia preparado tanto para a morte que a vida agora era um problema.

Do meu lado, Maria ainda dormia e não sabia que nossa vida havia mudado. Casados há 21 anos, os últimos tinham sido um tempo de tensão a cada gripe, mancha na pele, febre sem explicação. O amor feito durante tanto tempo e que havia sido interrompido pelo medo do contágio, do descuido, do imponderável, estava agora ao alcance da vida como um milagre, apesar de meus 56 anos, como costuma insistir um jornal paulista. Pensei comigo mesmo, camisinhas nunca mais! Maria dormia, ainda não sabia da novidade. Ela agora poderia ser viúva de outras coisas mais banais, mais correntes, mais normais. Ela não mais seria a viúva da AIDS. Grandes avanços. Tinha os filhos para avisar. Não mais seriam órfãos da AIDS. O pai agora tinha algo de imortal ou podia morrer como todo os mortais.

A TV continuava a mostrar cenas incríveis em Nova Iorque, e o meu telefone já começava a tocar. Afinal, eu havia sido, durante quase dez anos o entrevistado perfeito para o caso da AIDS: era hemofílico, contaminado e sociólogo. Podia desempenhar três papéis num só tempo e numa só pessoa. Eu era uma espécie de trindade aidética! Iam querer saber o que sentia, o que faria, meus primeiros atos, minhas emoções, minhas reações diante da vida e da normalidade. Imaginava as perguntas: como você se sente agora que é de novo um ser normal? O que vai fazer agora de sua vida? O que efetivamente mudou na sua vida? O que você aprendeu com a AIDS? Você continua a ter raiva do governo? Cheguei a pensar, como Chico Buarque, que daria minha primeira entrevista ao Jô Soares. Afinal, falaria da vida, tomando cerveja!

Ainda na cama, onde, de manhã, gosto de ficar, tive saudades do Henfil e do Chico, e em meio à alegria que já me contagiava, chorei. Por que haviam sofrido tanto e morrido tão fora de hora? Quanto sofrimento inútil, quanta dor que palavras não descrevem. O olhar parado de quem expira. O abandono sem remédio. A fatalidade que nem a morte enterra? Por que logo eles haviam morrido, se eram meus irmãos, a quem telefonava com a certeza de quem acreditava poder fazer isso séculos e séculos seguidos? De repente, ninguém do outro lado da linha. Números riscados numa agenda sem remédio. Ainda a lembrança do Chico no enterro do Henfil, dizendo para mim, entre espanto e humor: hoje é o Henfil, amanhã serei eu, e você irá daqui a 03 anos... Bem, digamos 05!

E hoje estou aqui passados 04 anos, quase 05, lendo essa notícia, e eles todos mortos antes do tempo. Não há remédio para a morte de meus irmãos, que são tantos.

De repente me dou conta de que houve realmente remédio para a AIDS. É hora de levantar, atender os telefonemas, reunir o pessoal da ABIA. Festejar com o pessoal do IBASE. Abrir um champanhe, ou uma cerveja. Telefonar para saber onde estava o tal remédio, como comprá-lo, o preço, o prazo da chegada. Estaria disponível quando, a que preço? Quem poderia comprá-lo?

Algo inusitado acontecia em paralelo. Amigos e amigas, que não suspeitava, me chamavam para dizer que eles também eram soropositivos, porque agora havia cura. Uns diziam que suas vidas sexuais eram um caos, mas que agora havia cura. Alguns me chamavam para dizer que iriam começar o tratamento, o controle e a pensar na vida, porque agora havia cura. E, finalmente, outros me diziam que agora poderiam revelar a imprensa sua condição de soropositivos, para servir de exemplo, porque agora havia cura.

De repente, dei-me conta de que tudo havia mudado porque havia cura. Que a idéia da morte inevitável paralisa. Que a idéia da vida mobiliza... Mesmo que a morte seja inevitável, como sabemos. Acordar, sabendo que se vai viver, faz tudo ter sentido de vida. Acordar pensando que se vai morrer faz tudo perder o sentido. A idéia da morte é a própria morte instalada.

De repente, dei-me conta de que a cura da AIDS existia antes mesmo de existir, e de que seu nome era vida. Foi de repente, como tudo acontece.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Pipa

Foi saltando de blog em blog que parei no blog da Pipa. E me encantei com os textos. O meu preferido é o "Adeus Margarida". A Pipa é uma blogueira de mão cheia. Nunca vi tanta habilidade em concatenar texto e imagem.

Quando Allah distribuiu os dons, entregou a Henfil a metade do dom da escrita, e à Pipa, a outra metade.

Aí está o texto ao qual me referi: o da Margarida.

Adeus Margarida

Margarida,

hoje você saiu no jornal. Não era manchete, nem foto grande de primeira página. Foi uma notinha discreta com o título de “Fatalidade”. Dizia que você era linda e alegre, mas isso não era notícia pra mim. Notícia mesmo era o que dizia de como você pegou no sono. Na banheira. E que não acordaria nunca mais.

Quando recebi a notícia pensei nas coisas que você não mais sentiria. O vento batendo no rosto. O som agradável da sua música favorita. O gosto do chocolate ao leite que você adorava. Pensei também que você não sentiria mais a água quente batendo no corpo cansado. Engraçado pensar que esta foi a ultima coisa que você sentiu. O bom é poder achar que seu corpo agora está descansado. Descansando.

Engraçado, Margarida, como as coisas são. Muita gente querendo fazer as pazes com Morfeu e criando briga com Anúbis. E você com toda delicadeza e juventude tendo que encarar os dois em algum lugar que eu quero chamar de céu. Eu sou do contra. Não quero a paz de um, nem a tormenta do outro. Quero cantar pra você que está faltando um pedacinho. E gritar que “Dona Margarida quer ensinar pra vocês as coisas simples da vida”. Não era isso que você falava?!

Foi essa lição que levei na hora de me despedir de você. Estava triste. Brava. Mas com o coração batendo num compasso três por quatro. Simplesinho. No meio do desespero de muita gente encontrei paz e força pra te levar um pouquinho de bom gosto. Entre os cravos da morte, já murchos, deixei três margaridas ainda bem dispostas e quis cantar nosso Rap. Isso porque o estranho da morte é perceber que é a gente que passa a não existir. Eu quis estar bem viva. Ou parecer.
Enchi o peito de coragem e finalizei minha homenagem: vai em paz, Margarida. E cuide do nosso jardim.
- Texto extraído do blog: http://rimasetrovoes.blogspot.com

Eternidade

Pode haver coisa mais antipática que a ETERNIDADE? Allah me guarde de ser eterna onde quer que seja. Não vejo vantagem, muito menos boniteza no que não acaba. Pra uma coisa ser bonita, ela precisa ter um fim. Ela precisa deixar saudades. Precisa gerar a sensação da falta, do lamento pela ausência, da nostalgia do vazio.

Já parou pra pensar que 50 % das qualidades que temos nos são imputadas póstumamente. As pessoas ficam mais virtuosas quando partem. Justamente porque o fim gera a dúvida acerca do que poderia ter sido e que não foi. E do que poderia vir a ser e não será jamais. E é aí que reside a delicadeza das coisas e das pessoas. Quando alguém parte do nosso convívio, nos deixa perguntas que ecoam cortantes: "se ele estivesse aqui, agiria de outra forma"; "se ela estivesse viva, saberia lidar com essa situação". Aquele que partiu tem qualidades sobrehumanas.

Tenho uma amiga que ficou órfã de mãe na adolescência. Foi batendo longos papos com a Kel que fui apresentada ao mais perfeito afeto conjugal que já conheci. Os pais da Kel se amaram da maneira inexplicavelmente perfeita.Os olhinhos da Kel descrevendo a mãe dela eram a coisa mais terna e comovente desse mundo. Mas sei que o contar da Kel é que embeleza tudo. E embeleza tudo porque é assim que a Kel vê a mãe que partiu. A interrupção da existência é que dá outro rumo a tudo.

Fico aqui na torcida para que a eternidade não exista. Eu não a quero encontrar não. O espetáculo da vida só é bonito porque sabemos que a cortina vai se fechar.

O tédio atrelado àquilo que nunca acaba (ou demora muito a acabar) me fez lembrar uma canção do Chico e que gosto muito:

UMAS E OUTRAS
(Chico Buarque)
Se uma nunca tem sorriso
É pra melhor se reservar
E diz que espera o paraíso
E a hora de desabafar
A vida é feita de um rosário
Que custa tanto a se acabar
Por isso às vezess ela pára
E senta um pouco pra chorar
Que dia! Nossa, pra que tanta conta
Já perdi a conta de tanto rezar

Se a outra não tem paraíso
Não dá muita importância, não
Pois já forjou o seu sorriso
E fez do mesmo profissão
A vida é sempre aquela dança
Aonde não se escolhe o par
Por isso às vezes ela cansa
E senta um pouco pra chorar
Que dia! Puxa, que vida danada
Tem tanta calçada pra se caminhar

Mas toda santa madrugada
Quando uma já sonhou com Deus
E a outra, triste namorada
Coitada, já deitou com os seus
O acaso faz com que essas duas
Que a sorte sempre separou
Se cruzem pela mesma rua
Olhando-se com a mesma dor
Que dia! Cruzes, que vida comprida
Pra que tanta vida pra gente desanimar

Café

"Café algum é superior ao café do Brasil"


Dedico esse post a ele. Que é o mais longevo dos africanos. E que me faz companhia em noites de intermináveis leituras. Dedico esse texto a ele que me alenta quando já não tenho unhas a roer ou cabelos a arrancar. Desculpem-me a confissão: sou viciada. Viciada em CAFÉ. O que, a meu ver, é uma insanidade levando-se em conta que vivo num país tropical onde, durante quade todo o ano, o sol escaldante me reveste de um calor infernal.

Mas não tem problema. Troco com desenvoltura e sem pensar duas vezes, um suco ultra gelado por um café bem quentinho, "passado na hora".

Como é que essa moda - a moda da devoção pelo café - pegou em terras tão escaldantes? Brasil, República Dominicana, Nicarágua e Cuba foram, durante grande período de suas histórias, grandes produtores, consumidores e exportadores de café. Os cubanos ousaram até mesmo reverenciar essa bebida mágica em linhas melódicas: quem nunca ouviu falar da clássica canção "Moliendo café" que, ao rítmo de salsa e embalada por uma percussão formidável, se espalhou mundo afora?


Mas por mais que seja hoje universal, meu fiel escudeiro nem sempre foi bem interpretado. Os maometanos, no passado, o olharam com reservas por acreditarem que a enigmática bebida era nociva à lucidez e contrária às leis do profeta Mohammed. Depois, foi a vez dos cristãos encrencarem: por ser bebida de infiéis muçulmanos, o café foi proibido aos cristãos e só obteve clemência quando o Papa Clemente o provou, gostou e aprovou.

De lá pra cá o café viajou muito. Fez amantes em todas as esquinas. E foi pretexto para encontros formais, reconciliações, discussões filosóficas e conversa fiada. Foi teimoso e se recusou a florescer em espaços que lhe foram hostis. Foi assim no Brasil. As primeiras mudas de café que aqui chegaram,vindas da Guiana, foram plantadas no Pará. Mas a planta caprichosa, cheia de vontades e dengos, deu de pirraça. E não vingou. Só aceitou funcionar quando trazida ao Vale do Paraíba.Foi a partir do Vale, que o café deu cotovelada no nosso açúcar empurrando-o para o segundo lugar na nossa pauta de exportações. Sim: no século XIX, o Brasil, que já havia sido a Terra de Santa Cruz, a terra do papagaio e a terra do açúcar, tornou-se a terra do café.

E nos empolgamos tanto, que nos excedemos. Plantávamos café no calçamento. Nas praças, nas grutas e nos alpendres. O café sofreu metástase. E ameaçou nos arruinar. Foi então que tivemos que nos esforçar para convencer os estrangeiros, de que nosso café, muito embora fosse tão café quanto qualquer outro café do planeta, era o melhor. Tarefa difícil.

Foi assim, tentando convencer o mundo a olhar para o nosso café e achar mais graça nele do que nos outros, que foram produzidas propagandas publicitárias no exterior, como essa que antecede esse meu texto.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Daniel


Ei... Esse é o Daniel. Daniel Le Rouge. O de Paris. O debochado. E espirituoso. Um dos líderes do movimento estudantil de 1968.
Os mais velhos o execravam. Para as "pessoas sérias e engravatadas", Daniel era o ícone da desordem e do romantismo leviano.

Para mim, Daniel, com todo o seu senso de humor, foi mais lúcido do que De Gaulle. Ele falava em reforma curricular para as universidades francesas quando toda a sociedade ignorava que estava mergulhada em uma política educacional ultrapassada e inadequada à nova realidade.

A postua sempre informal de Le Rouge talvez o tenha feito ser mal interpretado. Desordeiro? Não, senhores. Quem foi que disse que pra ter boas idéias é preciso ostentar um olhar de gravidade?

1968


Quando Allah criou o mundo, criou também o tempo. E quis que o ano de 1968 fosse o mais atrevido. E misturou nele entusiasmos e rebeldias. Deu corda na juventude. E sacudiu bastante. E o mundo virou de ponta à cabeça.

Na França, Le Rouge deu rasteiras cômicas em policiais cisudos. No Vietnã, os vermelhos golpearam ferozmente a tirania do sul. No Brasil, cem mil marcharam contra os pontapés insistentes dos militares golpistas. Nos EUA, os hippies declaravam em uníssono que o bom era fazer amor e não a guerra. E, embalados pela guitarra rebelde de Jimi Hendrix, cuspiram na sociedade de consumo inventando um modo de ser mais lúdico e artesanal.

O mundo fez careta em 1968. Riu de si próprio. Debochou de seus vícios. E descobriu que a existência é possível sem tantas regras inúteis. O bando de Le Rouge pichou num muro em Paris: "É PROIBIDO PROIBIR". E no Brasil, a Tropicalha repetiu, na voz de Caetano : É PROIBIDO PROIBIR.

E por falar em Caetano, 1968 inventou também a "desarrumação" (o texto é meu e invento a palavra que eu quiser). Sim: estar despenteado, se apresentar sem camisa, e usar roupas desbotadas tornaram-se estandartes do ativismo de uma juventude que queria fazer a diferença numa sociedade demasiadamente moralista.

Permitam-me estabelecer um diálogo com o livro sagrado dos cristãos. Quando Allah criou o mundo, criou também o tempo. E inventou 1968. E viu Allah que tudo aquilo era muito bom.

Eis algumas frases que foram pichadas nos muros de Paris em Maio de 1968:

"É proibido proibir"
"Trabalhadores de Paris:divirtam-se"
"As fronteiras que se danem"
"Inventem novas perversões sexuais"
"A humanidade nunca será feliz até o último capitalista ser enforcado pelas tripas do último burocrata"
"Abrir as portas dos asilos, das prisões e outros liceus"
"A barricada fecha a rua mas abre o caminho"
"A liberdade do outro amplia a minha ao infinito"